quarta-feira, 24 de junho de 2009

Cientistas pesquisam o verdadeiro Robinson Crusoé

Gerações de crianças ficaram hipnotizadas pelas explorações de Robinson Crusoé, mas poucas pessoas têm consciência da figura da vida real que inspirou o clássico. Agora, 300 anos após ter deixado sua ilha-prisão, cientistas descobriram como o verdadeiro Crusoé conseguiu sobreviver.

O que era aquilo? Um fogo queimando em uma ilha deserta do Pacífico Sul? No dia seguinte, o capitão do navio pirata inglês Duke, enviou um grupo armado para ilha para investigar. Quando os homens retornaram, trouxeram duas surpresas: um grande número de lagostas e uma criatura em farrapos.

A figura que subiu a bordo do Duke no dia 2 de fevereiro de 1709 aparentemente era humana, mas tão selvagem quanto um animal, descalça e coberta com pele de cabra. A criatura, extremamente agitada, só era capaz de gaguejar poucas palavras, quase incompreensíveis a princípio, mas suficientes para torná-la imortal.

Em seu romance, primeiramente publicado em 1719, Daniel Defoe batizou o náufrago de "Robinson Crusoé". Mas o verdadeiro Robinson chamava-se Alexander Selkirk. Era escocês, sétimo filho de um sapateiro de uma aldeia perto de Edimburgo. Ele tinha passado quatro anos e quatro meses em Más a Tierra, ilha varrida pelo vento no arquipélago de Juan Fernandez, a 650 km da costa do Chile. Ele estava tão só quanto um ser humano pode estar. Para Selkirk, não havia o "sexta-feira", personagem que Defoe criou em seu romance.

Diferentemente de seu equivalente literário, Selkirk não era um náufrago. Seu capitão simplesmente o abandonou após uma longa briga. Ele deve ter olhado em espanto enquanto seu navio partia no horizonte. Entre os poucos itens que manteve estavam alguns artigos de roupa, uma faca, um machado, um revólver, aparelhos de navegação, uma panela, tabaco e uma Bíblia.

No 300º aniversário de sua volta para a sociedade, os cientistas agora podem pintar um quadro claro da existência de Selkirk na ilha. Eles acreditam saber como e onde ele morava, parcialmente por meio de seus objetos recém descobertos. Sua vida após ser resgatado também pôde ser reconstruída, fornecendo um retrato do verdadeiro Robinson que nem sempre é enaltecedor -mas ainda assim típico dos marginais que partiam para os mares naqueles tempos.

Selkirk era um pirata bêbado, violento e de pavio curto. Nascido em uma família problemática, fugiu para os mares quando tinha apenas 17 anos. Trabalhando em navios privados no Mediterrâneo e no Caribe, ele roubava espanhóis e franceses. Apesar de não ser burro e ter subido para a posição de navegador, seu temperamento era precário. Selkirk aparentemente sempre teve dificuldades para lidar com outras pessoas, o que talvez tenha sido precisamente a razão para que aguentasse seu confinamento solitário na ilha com tanto sucesso.

David Caldwell, 57, é arqueólogo do Museu Nacional Escocês de Edimburgo. Seu campo em geral é história escocesa, que ele estuda do conforto de seu escritório. Entretanto, quando Daisuke Takahashi, fanático por Robinson Crusoé, pediu-lhe que viajasse com ele para a ilha do pirata abandonado, foi uma oferta que não pôde resistir.

O entusiasta Takahashi tinha obtido fundos da National Geographic Society para sua expedição, mas precisava de um verdadeiro acadêmico como seu parceiro. Caldwell certamente era bem qualificado. Duas das relíquias mais famosas de Selkirk estavam na coleção de seu museu: um recipiente para água que o pirata pode ter esculpido ele mesmo, e um baú do Norte da Itália, que Selkirk teria capturado no Mediterrâneo, segundo Caldwell.

Os dois homens passaram mais de um mês na ilha, que foi oficialmente rebatizada de ilha Robinson Crusoé em 1966. Ainda é um local silencioso que hoje abriga cerca de 600 pessoas, na maior parte pescadores de lagostas. Tem duas ruas de terra e duas dúzias de veículos. Não tem restaurantes nem bares. Cruzeiros ocasionalmente lançam âncora em Robinson Crusoé, na rota das ilhas Galápagos para a Terra do Fogo.

A ameaça espanhola
Caldwell e Takahashi recentemente descreveram suas descobertas na revista acadêmica "Post-Medieval Archaelogy". Eles escavaram em um ponto que Takahashi, que tinha visitado a ilha antes, acreditava ser o acampamento de Selkirk: uma clareira bem protegida em um morro vulcânico, quase 300m acima do nível do mar, cercada de arbustos. Selkirk escolheu não morar na praia porque era perigoso demais. Apesar de não temer canibais, como fazia Robinson Crusoé no romance, os espanhóis eram uma ameaça. Eles o teriam matado ou escravizado.

A equipe logo descobriu os restos de um baú de munição espanhol. Os espanhóis tinham ocupado a ilha em 1750 para impedir que seus inimigos continuassem a usá-la como porto seguro. Entretanto, Caldwell encontrou duas antigas fogueiras mais antigas abaixo da câmara -e ossos carbonizados nelas.

Em torno do local, os pesquisadores encontraram buracos na terra que aparentemente tinham acomodado postes. Talvez Selkirk tivesse construído uma cabana ali, conjeturaram. Quando Caldwell peneirou a terra escavada, descobriu a maior evidência da presença de Selkirk: uma peça de bronze angular, com 1,6 cm. Ele não deu importância à descoberta a princípio, até compreender que o formato do metal se encaixava com um braço de um divisório, que era parte do equipamento de navegação de Selkirk.

Caldwell acredita que o pirata usou seu divisório como ferramenta e o danificou no processo. Um teste metalúrgico revelou que o metal poderia ter vindo de Cornwall. "Esse é o tipo de evidência forte que raramente se tem na arqueologia", disse o historiador.

Diante do acampamento, havia uma forte subida de outros 300 metros para o posto de observação de Selkirk no topo da montanha, onde provavelmente passava várias horas por dia. Se visse um barco, tinha que decidir se pertencia a um amigo ou inimigo. Deveria acender o fogo ou permanecer escondido? Eles viram alguns navios e dois deles, ambos espanhóis, aportaram na ilha -mas ele conseguiu permanecer incógnito.

Os primeiros oito meses foram difíceis para Selkirk, um pirata em busca de ouro e aventuras, que caiu em depressão. Entretanto, com o tempo, ele começou a criar um lar.

De todas as ilhas nas quais Selkirk poderia ter sido abandonado, essa era praticamente feita sob medida para um sobrevivente. Sua vida logo melhorou, estava melhor do que jamais fora e talvez do que jamais viria a ser. Ele era um prisioneiro, porém mais livre do que nunca.

O clima era ameno na maior parte do ano, em geral seco, não havia animais perigosos nem venenosos e havia riachos de água doce. Focas gordas descansavam na praia, lagostas e variedades de peixes ocupavam as lagoas e plantas comestíveis prosperavam na ilha, inclusive morangos silvestres, agrião, uma forma de pimenta e uma planta com gosto de repolho. A única coisa que não havia era sal, como disse mais tarde àqueles que o resgataram.

Cabras, gatos e ratos
Selkirk não foi a primeira pessoa a morar ali. Em 1575, exploradores espanhóis trouxeram cabras para a ilha, e navios subsequentes trouxeram gatos e ratos, assim como rabanete e nabo. Selkirk domou gatos selvagens para que pudessem defendê-lo contra os ratos que mordiam seus pés à noite. Entretanto, um rebanho de cabras selvagens tornou-se sua maior fonte de divertimento.

Caçar cabras tornou-se um esporte para Selkirk. Ele aprendeu a correr mais do que elas e jogá-las no chão enquanto corriam. Ele soltou muitas, mas, conforme contou, matou 500 para comer a carne e tirar a pele. Ele até registrou cada cabra que matou.

Ele deve ter satisfeito suas urgências sexuais com a masturbação, apesar de haver algum debate entre especialistas se não teria feito sexo com as cabras. Para satisfazer sua necessidade de comunicação, Selkirk lia a Bíblia, rezava, meditava e cantava hinos. Ele confidenciou que nunca fora tão bom cristão como na ilha, e duvidava que jamais o seria novamente.

Selkirk, com 30 e poucos anos, tinha saúde bem melhor do que os marinheiros que o resgataram. Metade da tripulação tinha contraído escorbuto após uma dura viagem da Inglaterra. Entretanto, Selkirk se movia com facilidade. As solas de seus pés tinham se tornado tão grossas que corria mais do que o cão do barco no terreno pedregoso de sua ilha vulcânica. No princípio, ele não conseguiu vestir sapatos -nem tolerar o rum.

Por quase três anos, Selkirk navegou pelo mundo com os piratas que o resgataram. Eles lutavam, roubavam e extorquiam seus inimigos -tudo com a bênção da Coroa, porque suas vítimas eram inimigas do país. No final de 1711, Selkirk voltou para a Inglaterra com uma pequena fortuna. Ele se tornou celebridade instantânea, trocando suas histórias por comida e bebida nos bares. O arqueólogo Caldwell acredita que foi aí que Daniel Defoe o encontrou.

Selkirk, porém, estava infeliz no mundo civilizado e sentia falta da sua ilha. Ele teria dito a um jornalista: "Agora tenho 800 libras, mas nunca novamente serei tão feliz como era na época, quando não tinha nenhum centavo". Ele bebia e brigava e casou-se com duas mulheres ao mesmo tempo. Eventualmente, ele fugiu de volta para o mar, desta vez como tenente da marinha.

Sua vida chegou a um fim abrupto aos 45 anos. No dia 12 de dezembro de 1721, ele morreu de febre amarela na costa oeste da África, e foi sepultado no mar. Robinson Crusoé já era um sucesso na época. Hoje o trabalho de Defoe é celebrado como o primeiro romance de língua inglesa.

Há um mistério de Selkirk que ainda não foi resolvido. De acordo com os relatos de suas viagens, o pirata mantinha um diário em Más a Tierra. O diário também é mencionado em uma carta de uma de suas viúvas. Mas o que aconteceu com suas notas?

O arqueólogo Caldwell tem uma teoria. Pouco após a morte de Selkirk, seus escritos caíram nas mãos do duque de Hamilton, o nobre mais rico da Escócia. Quando seus descendentes precisaram de dinheiro, no século 19, eles leiloaram as pinturas e coleções na Christie's, em Londres. O império germânico nascente foi um importante comprador no leilão.

A teoria de Caldwell sugere que, se o diário do verdadeiro Robinson Crusoé ainda existe, deve estar em algum lugar em Berlim hoje. "Especularia que está em uma prateleira esquecida na Biblioteca Estadual de Berlim - Herança Cultural Prussiana", diz Calwell.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Machado de Assis a serviço da censura


O dever manda arredar da cena dramática todas aquelas concepções que possam perverter os bons sentimentos e falsear as leis da moral.” A frase é do mais respeitado escritor brasileiro, mas não consta de nenhum de seus livros, contos ou artigos em jornais. A pérola moralista faz parte de um parecer emitido pelo Conservatório Dramático Brasileiro, órgão oficial do Império responsável pela censura de peças de teatro. Datado de 1862 e assinado por Joaquim Maria Machado de Assis, o documento condenou ao anonimato o aspirante a escritor J.R. Pires de Almeida e sua peça Os Espinhos de uma Flor, que jamais foi encenada.

Machado de Assis, na época um jovem jornalista, trabalhou como censor dos 22 aos 24 anos e emitiu pareceres sobre 16 peças de teatro. Sempre com uma lâmina afiada, às vezes, limitou-se a barrar expressões chulas e diálogos picantes. Em outros momentos, sugeria mudanças no enredo. Na peça Mistérios Sociais, do português César Lacerda, o personagem principal teve de ser trocado. No original, o protagonista é o ex-escravo Lucena, que mantém um romance com uma baronesa. “Nas condições de uma sociedade como a nossa, esse modo de terminar a peça deve ser alterado”, escrevou Machado.

Esses e outros 3 mil pareceres estão sendo identificados e catalogados pela Biblioteca Nacional.

Peças Condenadas

Peças condenadas - Os Nossos Íntimos, comédia em quatro atos do francês Victorian Sardou

Cortes do Machado - “O caderno em que está escrita a comédia parece haver saído de uma taverna, tal é seu aspecto imundo e pouco compatível com a decência do Conservatório Dramático”

Peças condenadas - As Conveniências, do brasileiro Quintino Francisco da Costa

Cortes do Machado - “Tais doutrinas proclamam-se no drama, tal exaltação se faz da paixão diante do dever, que é um serviço à moral proibir a representação desta peça”

Peças condenadas - A Mulher que o Mundo Respeita, comédia do jornalista paulista Verediano Henrique dos Santos Carvalho

Cortes do Machado - “É um episódio imoral, sem princípio nem fim. Pelo que respeita às condições literárias, ser-me-á dispensada qualquer apreciação: é uma baboseira, passe o termo”

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Francesa que relatou orgias sexuais em livro diz que ama o Brasil

A francesa Catherine Millet, 51, sempre teve sólida reputação como crítica de arte, editora e intelectual. Porém, após expor sua vida privada em dois livros, ela causou alvoroço no mundo literário. Primeiro, ela escancarou sua intimidade para o mundo em "A Vida Sexual de Catherine M." (Ediouro, 2001), no qual relata detalhes de suas aventuras sexuais, da perda da virgindade a orgias com 150 pessoas. Depois, como se lhe ocorresse o inverso do sentimento de prazer, ela mostra às pessoas a desordem dos órgãos causada pelo ciúme, em "A Outra Vida de Catherine M.", que será lançado neste ano pela Ediouro.

Millet, que disse em entrevista à Folha Online que "ama o Brasil", participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano, que ocorre entre os dias 1º e 5 de julho, onde discutirá seu livro e suas ideias com a psicanalista Maria Rita Kehl.

"A Vida Sexual de Catherine M." marcou a figura de Millet como uma mulher libertária, segura, generosa com seu próprio corpo. Numa linguagem propositadamente neutra, ela explica sua divisão em dois corpos: um físico, apenas para explorar o prazer, do qual fazia uso em estacionamentos, cemitérios, parques e até mesmo no escritório da "Art Press". E um corpo amoroso, reservado apenas para o marido, o escritor Jacques Henric.

O livro dividiu a crítica e levou a escritora a viajar pelo mundo. Os direitos autorais do livro foram comprados em diversos países, chegando a vender 1,2 milhão de cópias. Porém, em 2008, Millet voltou a surpreender o público francês, ao confessar ter desabado frente ao ciúme que sentia do marido.

Quer dizer que uma mulher tão liberal com sua própria sexualidade tinha ímpetos de censurar as aventuras do marido? Sim. Ao descobrir que Henric também tinha seus encontros amorosos, Millet sucumbiu. Entre revirar a correspondência do marido e segui-lo quando saía de casa, a escritora começou a ter uma permanente sensação de sufocamento e o descontrole que, reconhece ela, é provocado por um ciúme doentio e destruidor.

Numa tentativa de se fazer entender por si mesma e pelo marido, Millet narrou seu encontro com o "monstro de olhos verdes" em "A Outra Vida de Catherine M.". O resultado é uma descrição transparente sobre uma dor muitíssimo conhecida e quase incontrolável. Mais do que isso, é um enfrentamento de contradições.

Leia íntegra da entrevista concedida com exclusividade à Folha Online, por e-mail.

Folha Online - Por que a senhora decidiu aceitar o convite para a Flip? Quais são suas expectativas? A senhora conhece Edna O'Brien, a escritora irlandesa com quem debateria no evento?

Millet - Porque não aceitaria o convite de um país que amo, do qual tenho boas lembranças e que acolheu meu livro muitíssimo bem? Além disso, é uma excelente ocasião para encontrar Edna O'Brien, que é uma mulher muito audaciosa.

Folha Online - A senhora é muito reconhecida por seu trabalho como crítica de arte e como editora da revista "Art Press". Como começou sua relação com o mundo das artes plásticas?

Catherine Millet - Eu tinha apenas 20 anos quando publiquei meu primeiro artigo sobre arte, no jornal "Les Lettres Française", dirigido por Loius Aragon. Eu vinha de uma família da pequena burguesia que não tinha contato com o mundo das artes. Apesar disso, me interessei pelo assunto muito cedo. Como presente de Natal eu sempre pedia livros de arte.

Folha Online - Depois da publicação de "A Vida Sexual de Catherine M." houve uma série de entrevistas que descreveram a senhora como alguém surpreendente: uma mulher elegante, muito clara em suas opiniões e pontos de vista, e até mesmo tímida, de vez em quando. Houve mesmo quem dissesse que a senhora era, em pessoa, uma verdadeira contradição com a Catherine Millet retratada no livro. A senhora acredita que essa contradição exista de fato? O livro evidencia uma face desconhecida de Catherine Millet?

Millet - Felizmente somos todos repletos de contradições! Se não, seríamos personagens monolíticos ou estereotipados, como personagens de histórias em quadrinhos. Se o livro revela uma 'face desconhecida' de minha vida, isso ocorre simplesmente com o público, que podia me conhecer apenas por meio de meus textos sobre arte. Pois eu nunca escondi meu modo de vida em relação a meus amigos, nem mesmo em relação a meus colegas de trabalho. Eu não faço alarde, mas também não me escondo.

Folha Online - Por que a senhora escolheu [o pintor catalão] Salvador Dalí como objeto dos seus estudos? Existe algum tipo de ligação com essa ideia de liberdade que lhe parece tão cara?

Millet - Eu quis conhecer Salvador Dalí como um escritor. É um pintor formidável, muito célebre, mas não se conhece seus escritos, que são de uma inteligência extraordinária. Uma das coisas que me interessou em seus escritos é que ele fala com muita franqueza de sua sexualidade, de seu medo do sexo feminino, de masturbação, de seus fantasmas etc. Além disso, eu quis compreender como ele havia construído seu personagem midiático, de uma maneira narcisista, mas que ainda assumia riscos.

Folha Online - O que trouxe para a senhora a motivação para escrever "A Vida Sexual de Catherine M."? A repercussão do livro foi uma surpresa? Mudou alguma coisa em sua vida?

Eu sempre disse que quis escrever esse livro para fazer um testemunho verdadeiro da sexualidade de uma mulher. Não quis escrever um livro erótico, ou seja, escrever uma história mais ou menos idealizada, fantasiada, que pudesse excitar os leitores e as leitoras. Ao contrário, quis entregar um relato realista. Sim, o sucesso foi uma surpresa, mas não mudou muita coisa em minha vida. Exceto pelo fato de que percorri o mundo inteiro para discutir sexualidade com públicos extremamente diferentes, e isso foi muito divertido. Enfim... Posso dizer que uma coisa de fato mudou em minha vida: minha vida sexual é muito mais saudável! Talvez seja porque envelheci. Talvez seja também porque quando você escreve sua vida, ela se torna qualquer coisa da qual você não faz mais parte. Catherine M. se tornou um personagem, ela não é mais eu. Se eu continuasse a viver como ela, teria a impressão de imitá-la!

Folha Online - Atualmente qual é seu ponto de vista sobre a questão da liberdade sexual? A senhora acredita que seu livro trouxe algo de novo para o debate sobre este tema?

Millet - Acredito que, por definição, a libido ignora todos os constrangimentos, e que é ela que perturba permanentemente os sentimentos e as regras sociais. Mas claro, cada um canaliza essa energia em função de sua própria moral. Francamente, não sei se trouxe algo de novo para o debate. Digamos que, no mínimo, meus livros testemunham a experiência de alguém que tinha 20 anos na época da revolução sexual e que viveu essa época plenamente.

Folha Online - A senhora acredita que, atualmente, as mulheres estão mais preparadas para aceitar a ideia do sexo dissociada do amor ou do romantismo?

Millet - Durante os séculos, e ainda hoje em algumas civilizações, as mulheres se casaram com homens que não amavam e com os quais eram obrigadas a "fazer amor". E, frequentemente, para não cometer o pecado do adultério, elas tinham que se contentar com o amor platônico em relação a um amante. Portanto, as mulheres sabem desde sempre que há um fosso entre o amor e o sexo. Essa ideia de que as mulheres não encontrariam o prazer sexual se não fosse em uma relação amorosa é um clichê, uma invenção ideológica para certificar os homens numa época em que as mulheres são, quando muito, muito menos submissas às leis sociais e religiosas do casamento, são muito mais independentes.

Folha Online - A liberdade é algo que parece ser de extrema importância para a senhora. Como conduzi-la com o casamento, descrito tantas vezes como uma prisão?

Millet - Que definição engraçada de casamento! Pode ser que haja pessoas para quem o casamento não é uma prisão. Pode ser que algumas mulheres, por exemplo, tenham escapado de um núcleo familiar que era uma prisão e tenham encontrado maior liberdade no casamento. De minha parte, creio que é preciso em um casamento reconhecer absolutamente a liberdade do outro, o que é a coisa mais difícil de se fazer!

Folha Online - A senhora sempre confiou em sua memória para escrever? Não há nada de fictício em seus livros? É possível chamá-los de "livros de memórias"?

Millet - Eu sou extremamente escrupulosa. Se não estou certa de minhas lembranças, começo a perguntar para meus amigos para verificar os fatos. E o interesse de meu livro é que seja justamente um livro de memórias, nunca um romance.

Folha Online- "A Outra Vida de Catherine M." é quase que uma continuação de "A Vida Sexual de Catherine M.". A ideia de escrevê-lo, segundo a senhora, surgiu de uma página do próprio "... Catherine M.', que trata da questão do ciúme. Por que pareceu importante escrever uma obra dedicada ao sofrimento que o ciúme produz?

Millet - Essa é uma forma de chegar ao âmago do meu projeto. O ciúme é um sentimento intrinsecamente ligado à vida sexual. Minha filosofia libertária não me impediu de conhecer esse ciúme. Se eu queria ser honesta, tinha a obrigação de dizer isso.

Folha Online - "A Outra Vida de Catherine M." é também um livro baseado em suas experiências; foi muito difícil escrevê-lo, ou esse processo trouxe uma certa liberdade em relação ao sofrimento e ao ciúme?

Millet - Ah, foi muito mais difícil escrever "A Outra Vida de Catherine M." do que "A Vida Sexual...", porque sou muito mais pudica com meus sentimentos do que com meu corpo. Mas faço parte daquele grupo de autores que, para escrever, devem estar muito libertos daquilo que desejam contar. O tempo verbal que utilizo é sempre o imperfeito. Eu confio muito na escrita terapêutica.

Folha Online - A senhora diria que a contradição é uma das faces mais interessantes do ser humano? Como trabalha com suas próprias contradições?

Millet - Existe uma expressão em francês: "Eu ponho as cartas na mesa". É a única forma de tentar tornar as coisas interessantes. Se você negá-las, elas te devoram.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

[Grandes Autores] A orgia de Marquês de Sade

Ninguém jamais recebeu o convite ao lado. Os qua­tro meses passados no ermo castelo Silling, no qual 48 pessoas se enclausuraram para praticar as mais devassas orgias, existiram apenas na mente de Donatien-Alphonse-François de Sade. E fazem parte da obra mais famosa do francês conhecido como Marquês de Sade, Os 120 Dias de Sodoma.

Esses e outros livros, pornográficos e libertinos, tiveram papéis contraditórios na vida de seu autor. Por um lado, o transformaram, muitos anos após sua morte, em um gênio precursor de correntes filosóficas e autor de obras consideradas à frente de seu tempo. Mas, por outro, são responsáveis pela confusão que se faz entre sua vida e sua obra.

A vida

Não que Sade fosse santo. O homem que deu origem à palavra “sadismo” e passou um terço de sua vida preso teve, sim, suas experiências sexuais um tanto incomuns. E era um grande mulherengo. Mas não fez diferente de outros nobres de sua época. “Libertinagem é uma palavra típica do século 18 e ‘libertino’ é um tipo social da época”, afirma Eliane Robert Moraes, professora de Estética e Literatura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “O libertino era um aristocrata que desafiava os valores dos homens e de Deus”, diz Eliane, que é autora de, entre outros, Lições de Sade – Ensaios sobre a Imaginação Libertina.

Sade tampouco fez o que escreveu. Sua literatura deu abertura para uma série de mitos construídos sobre si. Como o de que, por exemplo, teria passado seus últimos dias encarcerado solitário, escrevendo com sangue e com as próprias fezes para substituir a pena que havia sido tirada dele, como mostra o filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, de 2000. Na verdade, ele passou o fim da sua vida – tão obeso que os movimentos eram prejudicados – em um manicômio, mas ao lado da mulher e de uma amante, e escrevendo muito.

Sade era, antes de tudo, um nobre. Filho de um conde diplomata e militar, ele nasceu em junho de 1740 no palácio de La Coste, em Paris. Seguiu a carreira militar e, aos 16 anos, lutou na Guerra dos Sete Anos, na qual a França e a Áustria disputaram com a Inglaterra e a Prússia territórios e destinos comerciais. Quando voltou do conflito, foi obrigado pelo pai a casar-se com Renée-Pélagie de Montreuil. Filha de uma família de nobreza recente e com influência na corte, Renée tinha dois problemas, que se tornariam as perdições da vida de Sade: uma mãe muito poderosa e uma irmã mais jovem e mais bonita.

O primeiro escândalo na vida do marquês ocorreu cinco meses após o casamento. Em outubro de 1763, foi acusado pela prostituta Jeanne Testard de obrigá-la a renegar Deus e a realizar “atos de sacrilégio” com imagens cristãs enquanto mantinham relações sexuais. Acabou preso, mas, graças à influência da sogra, ficou na cadeia menos de um mês. A sogrona ainda o livrou da forca em 1772, quando Sade intoxicou uma prostituta – em uma festinha, ofereceu à infeliz um bombom com um licor afrodisíaco e ela quase morreu.

Sua esposa sabia de suas traições, mas, mesmo assim, manteve-se a seu lado por 27 anos, além de dar-lhe três filhos. Um deles, Donatien-Claude-Armande, queimou quase todos os manuscritos e correspondências do pai após sua morte. Se Renée fechava os olhos para as escapulidas do marido, o mesmo não fazia sua mãe. De protetora, a sogra passou a perseguidora quando Sade revelou que mantinha um caso com a cunhada, Anne-Prospère. O casal fugiu para a Itália. Ela conseguiu localizá-los e pediu ao rei da Sardenha em pessoa, Carlos Emanuel III, que expedisse uma ordem de prisão contra o marquês – embora sem acusação alguma. A sogra ainda se incumbiu das despesas de seu cárcere forçado na fortaleza de Miolans, em Savóia, entre a Itália e a França. Em abril de 1773, o marquês conseguiu fugir.

Em 1775, outra confusão. Uma orgia envolvendo empregados do castelo, Sade e a própria mulher, Renée, veio à tona. O processo foi aberto pelo pai de uma das criadas que participaram da festa – além de enfrentar o marquês nos tribunais, ele deu dois tiros em Sade, que se salvou graças à má pontaria do atirador.

Em janeiro de 1777, a sorte do nobre mudou. A sogra conseguiu que o rei emitisse uma carta de prisão, chamada lettre de cachet. Dessa vez, por 13 anos. E também sem um crime propriamente dito.

A obra

Até então, Sade era apenas um cara com uma vida amorosa apimentada. Na prisão, isso mudou. Lá – onde, ao todo, passou quase um terço da sua vida, lendo muito –, produziu toda sua obra. Em 1784, foi transferido para a Bastilha, onde escreveu contos e novelas (cerca de 50) e produziu seu primeiro romance, Os 120 Dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem, concluído em apenas 37 dias. Em 2 de julho de 1789, 12 dias antes da tomada da Bastilha, Sade foi transferido para o Sanatório de Charenton sem poder levar nada. Morreu sem saber que seus manuscritos foram achados por um guarda e publicados – mesmo que apenas em 1935.

Se existe uma coisa que o autor Sade não faz é poupar seus leitores. Inspirado nas “sociedades do amor” formadas pelos aristocratas de sua época para satisfazer desejos sexuais, o marquês escreveu a história de uma comitiva que realiza em um castelo as mais bizarras experiências sexuais. Grande parte da obra é dedicada à pedofilia e à descrição de práticas coprofílicas – com fezes humanas.

Em 1790, Sade foi anistiado pela Re­volução e deixou o manicômio. Foi quando Renée o abandonou. Dias depois, porém, o francês conheceu a mulher que seria sua companheira pelo resto de seus dias, Marie-Constance Renelle. E, com seus bens confiscados pela Revolução, envolveu-se na política: virou comissário para a administração de hospitais de um distrito de Paris. Três anos depois, voltou à prisão. A acusação agora era a de se recusar a punir e a condenar os réus: o marquês era malvisto pelos radicais revolucionários por sempre procurar o meio-termo e ser contra a pena de morte. Em liberdade, publicou A Filosofia na Alcova. No livro, conta a história de Eugénie, jovem que tem aulas de libertinagem em uma orgia entremeada por discussões filosóficas. Nele, faz uma irônica denúncia aos revolucionários. Acusado de “moderatismo”, escapou da guilhotina em julho de 1794.

Em março de 1801, com a França sob a batuta de Napoleão, Sade foi levado ao manicômio de novo – e nunca mais o dei­xou. Aos 74 anos, obeso, morreu em sua cela. Foi enterrado no cemitério de Charenton. Sua cova não tinha nenhuma inscrição, apenas uma cruz.


O legado

Apesar de produzir uma obra extensa – da qual apenas um terço foi publicado –, Sade foi um escritor pouco lido em sua época. “Ele sabia que o que escrevia não seria vendido na esquina livremente. Sempre foi um autor clandestino”, afirma Eliane Moraes. Assim ele permaneceu durante todo o século 19. Em 1834, uma edição do Dicionário Universal inaugura o termo “sadismo”, com o significado de “aberração horrível do deboche; sistema monstruoso e anti-social que revolta a natureza”. O nome só se torna famoso, porém, quando usado pelo psiquiatra alemão Richard Freiherr von Krafft-Ebing, num catálogo de psicopatias sexuais, em 1886.

Os livros de Sade chegaram a ser jul­- gados pelos tribunais franceses em 1950, sob a alegação de afronta à moral e aos bons costumes. Aos poucos, artistas como Salvador Dalí e André Masson começam a se inspirar nas imagens sadianas de crueldade para compor suas obras. Para a filósofa e escritora Simone de Beauvoir, a filosofia radical de liberdade de Sade precedia o existencialismo em mais de um século. Há quem o veja, ainda, como um precursor do estudo do foco da sexualidade que permeia toda a psicanálise de Sigmund Freud. Após mais de dois séculos de sua morte, o marquês recebeu dos surrealistas o apelido de “divino”, entrando para o hall de gênios da literatura e da filosofia.

“Ele coloca uma questão fundamental: como lidar com nossas paixões mais cruéis para encontrar um ponto de superação e de civilização”, afirma Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores da Companhia de Teatro Os Satyros, que interpreta Sade desde a década de 1990. Ainda hoje o pensamento do marquês é provocador. Vázquez diz que a platéia de Filosofia na Alcova, montagem ainda em cartaz em São Paulo, sempre sai chocada. Não fosse assim, não seria Sade.

“Amigo leitor, prepara teu coração e teu espírito para o relato mais impuro já feito desde que o mundo existe.”*

Você está convidado a mergulhar num mundo em que tudo é liberado. Incesto, homossexualismo, orgias e demais violações das normas da sociedade.

Local: Castelo Silling

Data: 30 de outubro de 1784

Durante 120 dias, 44 pessoas se entregarão aos mais secretos – ou nem tanto – deleites de quatro libertinos. Esqueça seus pudores, seus medos, seus questionamentos morais. Aqui não há lugar para eles.

* FRASE DE SADE NA INTRODUÇÃO DE SEU LIVRO OS 120 DIAS DE SODOMA

Mitos sádicos

Uma série de histórias foi contada sobre o nobre francês - mas poucas são verdadeiras

Muitas histórias nebulosas surgiram em torno de Sade. Com uma vida amorosa repleta de traições e festinhas, várias prisões e uma literatura pornográfica, ele serviu freqüentemente de bode expiatório para muitos crimes praticados por libertinos ricos e impunes de sua época. O próprio marquês confirmou, em uma das cartas que escreveu da prisão, em 1781, à esposa: “Sou um libertino, eu confesso; eu concebi tudo o que se pode conceber nesse gênero, mas seguramente não fiz tudo o que concebi e certamente nunca farei. Sou um libertino, mas certamente não sou nenhum criminoso nem assassino”. Vários crimes foram atribuídos a Sade, mas nunca provados. Eis alguns deles:

• Enviar um exemplar de seu romance Juliette (que contava a vida de uma moça que participa de orgias em um convento e relata cerca de 50 mil crimes) a Napoleão, que teria ateado fogo ao livro.

• Ser encontrado em uma sala com um homem morto colocado em um imenso pote de vidro com álcool. Ele teria matado o sujeito e dissecado o corpo.

• Em 1834, a polícia teria arrombado sua casa e o encontrado deitado no chão, bêbado, junto a seu criado, ambos estendidos sobre poças de sangue e vinho.

• Ser preso em flagrante quando tentava queimar uma mulher viva e nua em sua casa.

• Ter provocado, por intermédio de seus livros cheios de violência e crueldade, assassinatos – como o cometido por um suposto leitor, que teria matado uma jovem que cuidava do marquês no sanatório.

Cartas de um homem sensível

Correspondências revelam um sujeito angustiado e irônico

Preso durante um terço de toda sua vida, Sade se comunicava com o mundo por meio de suas cartas. Seja para as amantes, para a sogra, para a esposa ou para o rei Luís XVI, ele nunca deixou de escrevê-las. Nelas, o marquês se mostra um homem sensível, às vezes apaixonado, às vezes ciumento. Em uma biografia recente, The Marquis de Sade – A Life (“O Marquês de Sade – Uma vida”, inédita em português), o americano Neil Schaeffer traduziu centenas delas. Ele diz em seu site (www.neilschaeffer.com/sade) que “uma das melhores surpresas foi descobrir a riqueza, o humor e a humanidade genuína de suas cartas da prisão”. Muitas vezes seus relatos se mostram angustiados e revoltados, principalmente nas acusações à sogra. Em 1779, escreve a Renée: “Então sua execrável mãe não tem ao menos pena das minhas condições, e, embora esteja completamente consciente de tudo o que enfrento, ela o julga necessário, apenas para instigar sua raiva e a de seus conselheiros, apunhalando-me pelas costas novamente, doente como estou. Ah, besta detestável!” O marquês tem um humor refinado e, a seu secretário, escreve: “Na França não se fala impunemente a respeito de uma puta. Pode-se falar mal do governo, do rei, da religião: tudo isso não é nada. Mas uma puta, senhor Quiros, com os diabos! (...) Por causa dela intrepidamente encerram um cavalheiro na prisão durante 12 ou 15 anos”.

Saiba mais

Livros

Sade – Vida e Obra, de Fernando Peixoto, Paz e Terra, 1979

O livro trata de aspectos curiosos da vida de Sade, assim como de sua obra. Peixoto conta de maneira cronológica a vida do marquês, entremeando análises de seus livros mais importantes.

Lições de Sade – Ensaios sobre a Imaginação Libertina, de Eliane Robert Moraes, Iluminuras, 2006

Eliane é uma das únicas especialistas em Sade no Brasil e, neste livro, versa sobre sua filosofia, sua importância para os autores contemporâneos e seu espírito libertino.

120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade, Iluminuras, 2006

Livro fundamental para a compreensão da obra de Sade, considerado sua obra-prima.

Filmes

Contos Proibidos do Marquês de Sade, de Philip Kaufman, 2000

O filme é beaseado nos últimos dias de Sade no hospício, quando encena peças com os internos.