terça-feira, 25 de agosto de 2009

[Clássicos da Literatura] Dom Quixote

Uma exagerada Espanha inspirou Cervantes a escrever Dom Quixote.



Dom Quixote de La Mancha é um livro universal e válido para todos os tempos, mas só uma sociedade poderia tê-lo produzido: a Espanha do século 17. Para o leitor de hoje, é um pouco difícil imaginar o que foi o país das touradas na época do desajeitado cavaleiro andante. Tudo girava em torno do Império Ibérico: não havia uma pimenta da Índia, um quinhão de ouro do México, uma jóia de prata do Peru ou um escravo da Guiné que entrasse no continente europeu sem a chancela dos Habsburgo, a família real espanhola.

A sociedade em que se inspirou Cervantes para compor sua obra-prima era exagerada, contraditória e instigante. Nobres lançavam ouro pela janela para ver a multidão de mendigos se engalfinhar lá embaixo, bandoleiros amedrontavam as caravanas para filar as sobras dos banquetes e prostitutas arrepiavam o vestido para fisgar um conde desavisado. Marcada pelo luxo e pelo lixo, aquela sociedade criou um tipo disposto a ser socialmente reconhecido: o fidalgo, que, ao pé da letra, quer dizer “filho de algo”. Eram pessoas que não tinham privilégios, mas traziam algum sangue azul e um desejo ardente de prosperar.

Esses fidalgos, que buscavam se firmar numa sociedade em mutação, constituíram o exemplo perfeito para que Cervantes bolasse o seu ingenioso hidalgo. Intoxicado por novelas de cavalaria e máximas católicas, Dom Quixote enfrentou grandes inimigos imaginários para provar um heroísmo insuperável e garantir seu lugar ao sol na alucinante sociedade espanhola. Na verdade, Cervantes estava criticando, ao mesmo tempo, dois universos presentes em seu tempo: a antiga herança medieval dos cavaleiros, que já cheirava a mofo no século 17, e a importância descomedida que se dava aos valores materiais, tão bem encarnados no escudeiro gorducho Sancho Pança.

As aventuras quixotescas causaram frisson logo de cara: apenas em 1605, ano de publicação da primeira parte do livro, foram feitas mais de seis edições. Depois disso, Dom Quixote e seu cavalo Rocinante atravessaram quatro séculos de existência até os dias atuais. Sempre a galope.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ABL inaugura exposição em homenagem a Euclydes da Cunha

A Academia Brasileira de Letras inaugura nesta quinta-feira (27) dia 27, às 17h30, a exposição "Euclides, Um brasileiro", no Centro Cultural da ABL. A mostra integra a programação em homenagem ao centenário da morte do autor de "Os Sertões".
A exposição, que fica aberta ao público até o fim de novembro, conta com exibição de vídeos e de painéis iconográficos, textos de Euclydes da Cunha, ou sobre ele, correspondências do escritor --trocadas com Machado de Assis, Afonso Celso, Max Fleuiss, Gustavo Masson, José Verísssimo, entre outros--, além de objetos pessoais, cartões postais manuscritos, fotos e projéteis recolhidos em Canudos.
Na Academia, Euclides da Cunha foi o segundo ocupante da Cadeira 7, eleito em 21 de setembro de 1903, na sucessão de Valentim Magalhães e recebido em 18 de dezembro de 1906 por Sílvio Romero.
Euclides, Um Brasileiro
Quando: inauguração nesta quinta-feira (27), às 17h30
Onde: Centro Cultural da ABL (av. Presidente Wilson, 203, Rio de Janeiro)
Informações: pelo telefone 0/xx/21/3974-2500 ou pelo site www.academia.org.br

sábado, 22 de agosto de 2009

sábado, 15 de agosto de 2009

100 anos da Tragédia da Piedade

No dia 15 de agosto de 1909, o escritor Euclides da Cunha, o maior nome das letras nacionais, autor de “Os Sertões”, foi morto a tiros num acerto de contas com o amante da sua mulher, o cadete Dilermando de Assis. O desenlace deu-se num lugar um tanto ermo, na Estrada Real de Santa Cruz, área mais afastada do bairro da Piedade no Rio de Janeiro. Daí a imprensa, deste então, designá-lo com a Tragédia da Piedade, situação em que estiveram presentes, nos seus condimentos passionais, os elementos de um drama de proporções clássicas, digna do repertório de um Ésquilo.


Primeiros anos

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. Passou a infância e a adolescência entre fazendas e cidades fluminenses, com tios que o criaram desde os três anos, quando perdeu a mãe.
Quando jovem, transferiu-se para o Rio de Janeiro, desejando cursar a escola Politécnica; nela matriculou-se em 1885, mas saiu no ano seguinte, ingressando na Escola Militar, onde recebeu influência positivista, de oposição às instituições monárquicas.

No Olimpo dos Republicanos

Euclides da Cunha não era somente um escritor extremamente bem sucedido, era igualmente um herói republicano. Em dezembro de 1888, ainda na época do Império - em incidente que o deixou famoso bem antes de empunhar as letras - , sendo ele aluno da Escola Militar na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, por ocasião de uma apresentação de armas, lançou sua baioneta aos pés do Ministro da Guerra de D. Pedro II, em protesto contra as vexações anteriores sofridas pelos militares. Este ato corajoso e destemido, que lhe valeu a expulsão da escola aos 21 anos, abriu-lhe as portas para que ele circulasse entre a elite da oficialidade republicana. Começou a freqüentar a casa do major Solon Ribeiro, que além de fazer do lar o abrigo dos próceres republicanos, foi o oficial que entrou na história brasileira por ser o portador da mensagem do Marechal Deodoro da Fonseca a D. Pedro II, comunicando-o da proclamação da república. Ao visitá-la pela primeira vez, Euclides da Cunha logo entusiasmou-se pela filha do major, Anna Emília, a S´Anninha como a intimavam. Ela estava então com 14 anos, e era afilhada do Barão do Rio Branco. O cadete deixou-lhe um bilhete ”Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem.” O casamento entre o herói rebelde e a jovem musa republicana deu-se quase em seguida à Proclamação da Republica, consumando-se em 10 de janeiro de 1890. Foi, mesmo com os bons votos de todos , um enlace de infelicidades.

Fama e infortúnio

Se Euclides da Cunha foi sobejamente bafejado pela inteligência e o conhecimento de Minerva, Vênus, a deusa do amor, virou-lhe as costas. Em parte, justamente por identificar-se com a atividade da coruja, espremendo seus grandes olhos noturnos sobre livros, sobre alfarrábios, códices, registros, mapas e documentos, é que o pequeno cupido não incumbiu-se de flechar o coração de quem ele mais queria, S´Anninha. Celebrado no Brasil inteiro desde o lançamento de “Os Sertões”, em 1902, quase em seguida Euclides da Cunha começou a ser traído pela mulher. Sempre viajando, deixara-a com seus três filhos no Rio de Janeiro, morando numa pensão na rua Senador Vergueiro. Foi lá que ela, uma atraente balzaquiana, uma morena vivaz e sensual, mulher de leitura, conheceu o jovem Dilermando de Assis, com apenas 17 anos.

Quando o escritor voltou de uma viagem feita pela Amazônia, em 1906, onde fora tratar das questões de fronteiras, soube de tudo. Dilacerado entre a tentativa de manter um casamento de aparências - para não infelicitar os filhos ou manchar-lhe a reputação - , e os tormentos por sentir-se vilmente traído (Anna Emília, enquanto esposa de Euclides, chegou a ter dois filhos do amante), viu a sua vida torna-se um inferno. Ele não podia aceitar que ela, apoiada num desquite ou numa simples separação, fosse viver com um outro, ainda mais um garoto. Os tempos eram tiranicamente moralistas, exigindo dele uma atitude radical.

A tragédia da piedade

Monteiro Lobato, comentando o caso muitos anos depois, creditou-o às desgraças da Fortuna. Uma tragédia de Ésquilo, asseverou ele. Na manhã do domingo do dia 15 de agosto de 1909, Euclides da Cunha, com um pretexto banal, passou na casa de uns primos em Copacabana para conseguir uma arma. Sabedor da estação em que a mulher estava (ela, assustada com os crescente furores dele, homiziara-se na modesta casa do amante no bairro da Piedade), para lá rumou empunhando um revolver calibre 32. Percorrendo a Estrada Real de Santa Cruz, um local um tanto ermo, o marido injuriado não demorou para localizar o ninho dos amantes. Bateu palmas frente ao pequeno portão e pediu para entrar. Queria dar umas palavras com Dilermando. Anna Emília, que lá estava com o filho Solon, sentiu nos ares o cheiro do sangue. Mal a porta lhe foi aberta, Euclides, dizendo ter ido lá “para matar ou morrer”, disparou sua arma contra Dinorah, o irmão de Dilermando, um alferes da Marinha. Mais três outros foram feitos contra o amante. Campeão de tiro, o jovem Dilermando respondeu-lhe com dois balaços certeiros. Euclides, ferido com um projétil que lhe furara o peito, saindo pela porta lateral da casa, arribou nas escadas, morto. O maior escritor do país, desaparecia assim, só e duplamente humilhado, pela mulher infiel e pela destreza do amante dela.

Os anos seguintes

Após o assassinato, a imprensa nacional toma logo o partido do marido traído – escritor afamado, Imortal da Academia. Dilermando é exposto na imprensa como um vilão, e mesmo o inquérito policial tende a inverter a realidade dos fatos (o jornalista Orestes Barbosa foi dos únicos a defendê-lo), mesmo assim sem grande impacto. O fato constitui-se em um marco da parcialidade na imprensa brasileira. Em uma entrevista concedida à revista Diretrizes, de Samuel Weiner, Dilermando afirma que não conseguiria expor sua versão dos fatos “nem se pagasse”

É, apesar da gritante realidade dos acontecimentos, exposto ao júri popular, acusado de homicídio. Fartamente demonstrada, a legítima defesa resta comprovada, e Dilermando é absolvido.

Logo após sua absolvição em 5 de maio, casou-se com a viúva Anna da Cunha. Morando ambos em Bagé, sua casa torna-se agitado ponto cultural da cidade. Ali realiza a construção de muitos prédios, como engenheiro, como o Quartel General do Exército.

Em 1926, quando a mulher contava 50 anos, e com cinco filhos, separam-se.

Nova tragédia

Em 4 de julho de 1916 Dilermando sofre novo atentado, desta vez por parte de Euclides da Cunha Filho, apelidado familiarmente de “Quidinho”, que contava então com dezenove anos de idade.

Estava Dilermando num Cartório do fórum do Rio de Janeiro, quando foi por este alvejado pelas costas. Mesmo ferido, Dilermando reage, matando seu agressor – e um novo escândalo resulta em nova absolvição – deixando contudo um rastro de sangue na biografia do jovem militar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

[Clássicos da Literatura] Incidente em Antares: Este livro foi publicado


Em 1971, no auge da repressão imposta pelo regime militar, um livro provocava – sua campanha de lançamento destacava, em cartazes, a mesma frase da tarja que envolvia cada volume: “Num país totalitário este livro não seria publicado”. Fosse para não assumir publicamente o autoritarismo, fosse por não perceber o sentido político da ficção, a censura deixou o livro circular. A obra era Incidente em Antares. Seu autor, Erico Verissimo.

Nascido em 17 de dezembro de 1905 – e, portanto, tendo seu centenário comemorado este ano –, Verissimo é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros do século 20. Uma de suas obras mais conhecidas, O Tempo e o Vento, consumiu 13 anos para ser escrita, entre 1948 e 1961. Nas 2 mil páginas da trilogia, o autor narra a saga de 200 anos de pioneiros do Rio Grande do Sul.

Escrito quando Verissimo estava no domínio de sua maturidade criativa, Incidente..., em sua primeira parte, lembra O Tempo e o Vento, ao investigar a origem da rivalidade entre duas famílias da fictícia cidade de Antares, os Campolargo e os Vacariano. Misturando com habilidade história e ficção, Verissimo conta a participação dos adversários, sempre em lados contrários, nos principais episódios da política brasileira desde o fim do Império – quando uns são monarquistas, os outros são republicanos; quando uns apóiam Vargas, os outros lhe fazem oposição. A rixa tem uma trégua no início dos anos 1960: os rivais se unem contra operários que reivindicam seus direitos.

Na segunda parte, o tal incidente: os coveiros entram em greve e os mortos insepultos trocam o cemitério pela praça central. Ali, passam a julgar os vivos – mostrando que muitos estavam moralmente mortos.

Na ousada obra, os defuntos criados por Verissimo, mesmo em plena ditadura, deram seus recados, numa alegoria em que saiu vencedora a liberdade.

sábado, 1 de agosto de 2009

[Grandes Autores] Neal Cassady: o pai dos hippies


Sessenta e quatro mil, novecentos e vinte e oito! Essas foram, reza a lenda, as últimas palavras balbuciadas pelo espantoso Neal Cassady. Quem escutou o enigmático suspiro foi um mirrado grupo de índios tahaumaras que passava ao lado da linha férrea no ardente deserto mexicano, a 4 quilômetros da estação mais próxima, em Guanajuato, norte do México. Era a manhã de 4 de fevereiro de 1968, e os nativos evidentemente não alcançaram o significado dos algarismos que, junto com o último suspiro, derramaram-se da boca ressequida do gringo poeirento caído junto aos trilhos.

Se vivesse quatro dias mais, Neal Cassady iria comemorar seu 42º aniversário. Mas ninguém pode dizer que foi pego de surpresa pela morte — e, menos ainda, que ela não tenha sido coerente com a trajetória do falecido. Cassady morreu drogado, sozinho, (relativamente) jovem, no auto-exílio e à beira do caminho. O nobre selvagem que influenciou toda a literatura e a geração beat foi um desses personagens definitivamente maiores que a vida. Foi o frenético protagonista de On the Road, de Jack Kerouac, o "herói secreto" de Allen Ginsberg, um coquetel de James Dean com Marlon Brando e uma pitada de Maiakovski, o vagabundo celestial, o pai de todos os hippies, o patrono da delinqüência juvenil e da rebeldia sem causa, o motorista sem limites. Um genuíno herói americano.

Nascido em Salt Lake City em 8 de fevereiro de 1926, criado nos becos de Denver, Colorado, por um pai alcoólatra, Neal passou a adolescência em reformatórios lendo Nietzsche e histórias em quadrinhos (sem entender bem nenhum dos dois) e escrevendo longas, loucas cartas. Pelas vias transversas que sempre marcaram sua vida, tais cartas chegaram às mãos (e aos espíritos) de Ginsberg e Kerouac. E deflagraram uma revolução literária na América.

O vertiginoso estilo de Neal, sua torrente verbal sem pontos ou vírgulas, desatolou Kerouac do areal criativo onde ele se encontrava e o levou a escrever, em delirantes três semanas, o clássico On the Road – Pé na Estrada (1957). É o livro que transformou Cassady em personagem imortal. A vida (e a incipiente obra) do homem que Kerouac batizou no livro como Dean Moriarty também inspirou Ginsberg a criar um dos mais fulgurantes e sombrios poemas dos tempos modernos, Uivo (1956). A súbita fama tornou Neal Cassady prisioneiro da própria lenda. Mas ele ainda conseguiu incrementá-la ao partir com Ken Kesey (autor de Um Estranho no Ninho, 1962) em uma louca viagem de ônibus e de ácido, de costa a costa da América. Em meio a tantas vertigens, Neal escreveu seu único livro, parte inicial de uma autobiografia inconclusa, chamado O Primeiro Terço (lançado três anos após sua morte).

O fim da linha se deu naquela manhã de 1968. Após ingerir colossais doses de pulque, bebida fermentada feita de cacto, Cassady partiu, doidão e a pé, de Celaya, cidadezinha no meio de nada, até San Miguel de Allende, próxima a lugar nenhum, anunciando para sua jovem amante que iria contar quantos dormentes havia na linha férrea entre um vilarejo e o outro.

— Sessenta e quatro mil, novecentos e vinte e oito! — foi o que os tahaumaras escutaram o gringo dizer, antes que a insolação e a desolação levassem Cassady para brincar em outros campos do Senhor.