sábado, 26 de dezembro de 2009

Os Sertões, a terra e o homem



Euclides da Cunha lançou Os Sertões em 1902, para gritar aos quatro ventos contra a guerra de Canudos, arraial baiano fundado por Antônio Conselheiro e dizimado pela República. Depois de testemunhar o conflito como jornalista de O Estado de S. Paulo, ele se empenhou para demonstrar que o sertanejo constituía um tipo racial originalmente brasileiro, e não um inimigo republicano.

O jornalista dividiu o livro em três partes: “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”. Revelava, assim, sua predileção pelo historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893), que julgava o meio, a raça e o momento histórico como formadores de um povo. A terceira é a parte histórica da obra, em que se narra a morte de milhares de inocentes.

Diz-se que, com a famosa frase “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, o autor quis inverter as teorias raciais de que o homem tropical não passaria de um ambulante degenerado. Essa leitura, porém, não se sustenta. Para Euclides, o sertanejo era forte apenas porque, sendo geneticamente inferior, vivia em harmonia com o sertão, um ambiente também inferior. Por isso, o mais importante da obra contina sendo seu estilo, meio científico e meio literário, que consolidou o ensaio como gênero de “descoberta do Brasil”, e que teria como sucessores Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Darcy Ribeiro.

Canudos: O sertão em pé de guerra



Cai a tarde no Belo Monte, enquanto dois homens, um velho e uma criança tentam resistir ao cerco dos milhares de soldados do Exército que rugem por entre as vielas estreitas, saqueando casebres, degolando prisioneiros, incendiando túneis e o que sobra do arraial. O céu está vermelho, enfumaçado e quente, o cheiro é horrível e os urubus infestam o ar, efeito da guerra e da seca que racha a terra do sertão baiano. Até que os últimos quatro combatentes são mortos. E é o fim. Canudos foi destruído, mas não se rendeu.

A queda da cidade idealizada por Antônio Conselheiro aconteceu no dia 5 de outubro de 1897. Encerrou o mais sangrento conflito armado de nossa História, que provocou o maior número de baixas: 25 mil mortos, entre 5 mil militares enviados pela República e 20 mil sertanejos. Até derrotar Canudos, o governo foi mais de uma vez humilhado e precisou colocar em campo 12 mil soldados, metade de toda a Força nacional da época. Os quatro últimos sobreviventes são citados por Euclides da Cunha - cujo centenário de morte é comemorado este ano -, que acompanhou o confronto como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo e escreveu, sobre ele, o épico Os Sertões.

Segundo outros relatos, o velho jagunço foi o último dos quatro a morrer, enfrentando os inimigos apenas com um machado. Era essa a disposição de espírito dos seguidores de Antônio Conselheiro, ao longo dos 11 meses da luta, iniciada no dia 7 de novembro de 1896. Intimamente vinculados à terra que ocupavam, surpreenderam ao adotar táticas de guerrilha, como a camuflagem ou os túneis, que só seriam usadas em grande escala em conflitos bem posteriores, como a Segunda Guerra Mundial ou o Vietnã (veja os quadros). A resistência dos sertanejos obrigou o Exército a enviar quatro expedições ao povoado. Registros feitos pelo comando da última delas mostram que, mesmo em grande vantagem numérica e bélica, foi preciso "estacionar um pouco as operações" durante o confronto, para tomar fôlego: "Os jagunços são combatentes temíveis, com tiros certeiros, e ninguém deve planejar atacá-los se não tiver a máxima cautela... As balas que choviam de Canudos eram de extraordinária precisão..." O texto está no livro Canudos - Subsídios para a sua Reavaliação Histórica, da Fundação Casa de Rui Barbosa, que estima em 10 mil soldados o efetivo total mobilizado nos oito meses que a quarta expedição levou para ter sucesso, contando até com a presença do ministro da Guerra, Carlos Machado Bittencourt, em pleno campo de batalha.

Mas por que o governo atacou Canudos? Por razões políticas, principalmente a insatisfação dos grandes fazendeiros da região com a fuga de mão-de-obra para o modelo de produção do arraial - coletiva e sem os impostos criados pela República. Formalmente, contudo, a população de Belo Monte simplesmente foi roubada por um comerciante e caiu na armadilha preparada por um juiz desonesto. Em outubro de 1896, Antônio Conselheiro adiantou 1 conto e 200 mil-réis a uma loja em Juazeiro, por uma encomenda de madeira para uma nova igreja. O juiz local era desafeto do beato desde 1893 - quando o líder de Canudos havia promovido uma queima de editais de impostos, na cidade de Bom Conselho - e decidiu aproveitar a oportunidade para atingi-lo. Usou sua influência para que o comerciante não entregasse as tábuas, ao mesmo tempo que escrevia ao governador da Bahia, Luís Viana, dando o alerta mentiroso de que, na data marcada pelo beato para pegar a carga de madeira, bandidos de Canudos atacariam a cidade.

Para caçá-los, chegaram a Juazeiro três oficiais e 113 soldados no dia 7 de novembro de 1896 - a primeira expedição militar e o início de uma série constrangedora de derrotas do Exército. A tropa decidiu percorrer os 160 km até Canudos, debaixo de sol forte, sem comida e água suficientes. Duas semanas e 120 km depois, na cidade de Uauá, deu com os sertanejos. A República perdeu dez homens, e os demais bateram em retirada, "por insuficiência numérica, estropiamento, falta de recursos de toda a espécie", conforme registro citado pelo estudo da Fundação Casa de Rui Barbosa. Com a expulsão da tropa, cresceram a fama do beato e a população de Belo Monte. E, cerca de dois meses após a primeira, chegou à Bahia a segunda expedição para dominar os conselheiristas, com cerca de 600 soldados, metralhadoras e dois canhões.

Coisas invisíveis

Ao tentarem um atalho pela estrada do Cambaio para o arraial, os militares foram pegos. Entrincheirados, os sertanejos usavam bacamartes, facões, pedras e se misturavam ao terreno, vestidos de cores cruas e de folhagens. É o que o historiador Frederico Pernambucano de Melo, autor de A Guerra Total de Canudos, chama de "pioneirismo do guerrilheiro sertanejo quanto a uma virtude militar ainda desprezada pelos exércitos do mundo, presos ao traje colorido das guerras napoleônicas".



Com dez mortos, contra 76 do inimigo, o Exército foi encurralado e se retirou de novo. "Nunca vimos, eu e meus camaradas, tanta ferocidade", comentou o major Febrônio de Brito, líder da tropa. A partir daí, Canudos ganhou ares de "levante monarquista" na imprensa, e sua conquista virou questão de honra para o governo e para fazendeiros do sertão baiano, pressionados pela crise do açúcar e pela nova economia do café. Em meio a tudo isso, começava a se construir o mito da grande liderança do movimento, Antônio Conselheiro.

O cearense Antônio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), ex-comerciante, ex-professor, ex-caixeiro e ex-advogado autodidata, tornou-se Antônio Conselheiro em 1874 e, nos 23 anos seguintes, reuniu devotos peregrinando pelo sertão. Imagina-se que tenham contribuído para a conversão a dor de ter sido traído e abandonado pela mulher e as ideias do padre José Antônio Maria Ibiapina (1806-1883), missionário no Nordeste, embora não se saiba se tenham chegado a se encontrar.

Como ele, Conselheiro se dedicou a construir igrejas e cemitérios pelo sertão, já usando seu camisolão de brim, barbas e cabelos longos. "Vou para onde me chamam os mal-aventurados", disse ao jornalista e escritor João Brígido, autor de Ceará - Homens e Fatos, de 1919. Conselheiros, um tipo mais graduado de beato, não eram incomuns na região carente de água, comida e conforto espiritual. Mas esse foi diferente. Segundo o teólogo Eduardo Hoonaert, da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, em Os Anjos de Canudos - Uma Revisão Histórica, "a partir dessa sua enorme capacidade de sonhar coisas invisíveis e de viver a partir desses sonhos, a figura de Antônio Vicente ganha dimensões de gigante".



Para o historiador Mário Maestri, professor da Universidade de Passo Fundo (RS) e autor, com José Rivair de Macedo, de Belo Monte: uma História da Guerra de Canudos, o contexto político do sertão foi o verdadeiro fermento que amplificou o papel do beato. "As circunstâncias da História o transformaram em líder carismático das massas pobres nordestinas. Para os grandes proprietários e o Estado republicano, o Conselheiro era um tresloucado, um místico, um charlatão, um personagem nefasto que necessitava ser eliminado para que se restaurasse a gestão oligárquica tradicional das massas sertanejas. Canudos significava a inversão da ordem natural, uma sociedade de bárbaros e rústicos fanáticos, pois questionava, na ação, o latifúndio, através do uso útil da terra. E, sobretudo, retirava do controle dos grandes proprietários uma enorme quantidade de mão-de-obra, que passava a viver em sociedade autogerida e consensual." Segundo Marco Antônio Villa, escritor e professor de História da Universidade Federal de São Carlos, "o fim de Canudos representaria, como representou, o retorno do domínio do ‘landlord’ [senhor feudal], do despotismo senhorial". Ou seja, a vitória do coronelismo.

Pois é nesse contexto que, em 1893, Antônio Conselheiro resolve se fixar em Canudos, nome derivado do canudo-de-pito, planta usada para fazer cachimbos. O arraial tinha algumas dezenas de casas, uma igreja velha e um cemitério. Ficava na região do Raso da Catarina, sertão da Bahia, no estratégico entroncamento de sete estradas e ao lado do rio Vazabarris. Quatro anos após sua chegada, já eram 5200 casas e 25 mil moradores na comunidade, rebatizada como Belo Monte - a segunda maior cidade da Bahia, perdendo apenas para Salvador.

Mandioca e rapadura

De acordo com Maestri, "o grande diferencial foi o uso útil da terra, a não vigência dos impostos e taxas, a tributação sob a forma de pedido de donativos". No arraial, criavam cabras, cavalos e bois, e plantavam legumes, feijão, milho, mandioca, melancia, melão e cana-de-açúcar. Moravam lá ex-escravos, pequenos agricultores, índios, foragidos da Justiça, comerciantes, segundo Vicente Dobroruka, escritor e professor de História da Universidade de Brasília (UnB).



"Grande era a Canudos do meu tempo. Quem tinha roça tratava da roça na beira do rio. Quem tinha gado tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de rezar ia rezar. De tudo se tratava, porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo peregrino", afirmou Honório Vilanova, sobrevivente da guerra, a Nertan Macedo ("Memorial de Vilanova", em O Cruzeiro, 1964). Nas palavras de Manuel Ciríaco, antigo morador, "era um pedaço de chão bem-aventurado. Não precisava nem mesmo de chuva. Tinha de tudo. Até rapadura do Cariri."

O barão de Geremoabo, fazendeiro e um dos principais inimigos da comunidade, reclamou em uma carta que "alguns lugares desta comarca e de outras circunvizinhas, e até do estado de Sergipe, ficaram desabitados, tal o aluvião de famílias que subiam para os Canudos". Para Dobroruka, Antônio Conselheiro oferecia "a não ingerência do Estado, cuja mão não chegava até lá". Até porque o beato era monarquista. Não reconhecia a República, especialmente por ela ter feito a separação entre Igreja e Estado. A República "há de cair por terra para confusão daquele que concebeu tão horrorosa ideia", escreve ele no manuscrito "Prédicas aos Canudenses e um Discurso sobre a República", achado no arraial destruído.

A terceira expedição, menos de três meses depois da segunda, era chefiada pelo coronel Antônio Moreira César, conhecido como Corta-cabeças desde a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul (1892-1895). O coronel bravateava: "Só temo que o fanático Antônio Conselheiro não nos espere", escreveu em telegrama ao ministro da Guerra. Tinha certeza de que os sertanejos fugiriam com medo de seus 1300 homens e seis canhões.

Cortar soldados

Foi uma carnificina. No dia 3 de março, os soldados tomaram 28 casas do arraial, mas os conselheiristas revidaram furiosamente e feriram de morte Moreira César. O pânico tomou conta dos militares esfomeados, que fugiram sem comando, deixando pelo caminho cinco oficiais e mais de 200 soldados mortos, munição e armas para o inimigo. A derrota do Corta-cabeças teve tremendo impacto moral para a sociedade republicana. Como sertanejos até então mal armados venceram 1300 militares?

"Pelo conhecimento do terreno, pela defesa da vida comunitária, pelo significado da liderança religiosa do Conselheiro. Havia mais conselheiristas fora de Canudos que no arraial", diz Villa. Admiradores do beato chegavam até de outros estados. "Ao longo das expedições, muita gente vai para Canudos. Muitos se vangloriando: ‘a gente vai lá cortar soldados’. Isso porque a ação do Estado, no sertão, é de acossar cidadãos e aumentar impostos", afirma Dobroruka.

Segundo Maestri, essa integração com o sertão, envolvendo apoios para além do arraial, permitiu a reposição de homens e víveres: "O reduto de Belo Monte foi apenas a capital de uma verdadeira república sertaneja que se constituiu nos sertões do norte da Bahia. As tropas começavam a ser atacadas quando penetravam os territórios livres sertanejos. O domínio sobre esse território e a chegada incessante de caboclos de fora das fronteiras da pequena república para participar da resistência explicam a impressionante saga social e militar."

Os cerca de 10000 soldados da quarta e última expedição levaram mais de três meses para subjugar Canudos. Mas as colunas do Exército, dessa vez, planejaram o cerco com cuidado. "O erro fundamental das três primeiras expedições foi falta de informação e avaliação equivocada do problema, agravadas pela falta de apoio logístico e por disputas políticas. A quarta expedição estava mais organizada e bem informada", afirma o coronel Luiz Carlos Carneiro, coordenador de cursos de História Militar na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio).

Entre 25 de junho e 5 de outubro de 1897, os combates são renhidos, e há muitas baixas entre os soldados, que sofreram enfrentando um inimigo invisível e aparentemente irredutível. Mas a sorte vira, principalmente depois da destruição, a balas de canhão, da igreja nova do arraial, em 6 de setembro, e da morte de Antônio Conselheiro, em 22 do mesmo mês, vítima de disenteria e de um ferimento de tiro. No dia seguinte, o golpe decisivo: o Exército fecha a última estrada para Canudos, impedindo a entrada de combatentes e alimentos.


Daí até o 5 de outubro, o arraial agonizou. Foi quando os últimos combatentes foram mortos e as casas, saqueadas. Era o fim da guerra. Encontraram o corpo de Antônio Conselheiro e cortaram sua cabeça, enviada a Salvador para "estudos". Muitos dos sertanejos foram degolados após terem sido presos ou se rendido. Martins Horcade, estudante de Medicina voluntário na quarta expedição, descreveu o que viu entre as ruínas de Belo Monte: "Horror e mais horror, o cúmulo do horror. Só em uma casa encontrei 22 cadáveres já queimados de mulheres, homens e meninos". Depois de tudo, o povoado foi incendiado. E, durante a ditadura militar, o terreno submergiu sob o açude do Cocorobó, inaugurado em 1969. Antes do incêndio, acharam o manuscrito de Conselheiro, onde se lê: "Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos (...) aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança desse peregrino, que aspira ansiosamente a vossa salvação e o bem da Igreja".


Guerrilha
Táticas que seriam consagradas em grandes conflitos mundiais

Invisibilidade

A roupa nos tons bege e o entrincheiramento camuflavam os conselheiristas, que também se vestiam de folhas, traziam campainhas ao pescoço e berravam como carneiros para se aproximar do inimigo. Os soldados do Exército, ao contrário, usavam cores fortes que os tornavam alvo fácil.

Outras batalhas - Os japoneses fizeram o mesmo contra os russos, na campanha da Manchúria (1904). Na Primeira Guerra Mundial (1914), os alemães vestiram cinza-verde contra franceses de calças vermelhas (o uniforme azul só veio depois).
Túneis

Túneis entre as casas e nas extremidades do arraial permitiam circular despercebido e surgir de repente, surpreendendo o inimigo. Os casebres tinham ainda "seteiras" ou aberturas ao rés do chão, para esconder atiradores.

Outras batalhas - Cavaram os japoneses, em Iwo Jima, e os russos, em Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial; também os vietcongues (1959-1975), contra os EUA; e o Hezbollah, no Líbano, contra o Exército de Israel, em 2006. Os túneis serviram como depósito de armas, para emboscadas ou proteção.

Disfarce

Com as fardas dos soldados mortos, os homens do Conselheiro se misturavam à tropa para sabotar atividades internas, causando confusão e medo.

Outras batalhas - Na Segunda Guerra Mundial, na floresta das Ardenas (Bélgica), alemães com fardas norte-americanas se infiltraram entre os aliados para ajudar no efeito surpresa da ofensiva. Integrantes do grupo de elite israelense Saveret Matkal se disfarçam de árabe em território inimigo para colher informação.

Logística

Ataques a animais de tração, condutores da artilharia e dos carroções de suprimentos. Não havia pressa em assaltar, em seguida, um inimigo assim imobilizado e apavorado no terreno.Também era forma de impedir o avanço do canhão Withworth (a "matadeira").
Outras batalhas - O Taleban, no Paquistão (2008/2009), realiza ataques frequentes a comboios: atualmente, mais de 70% dos suprimentos e munições das tropas de ocupação chegam ao Afeganistão pela rota que vai do porto de Karachi (Paquistão) até a cidade de Peshawar.

Atirador de elite

O "tiro de ofensa ao acaso e de enervamento" era dado de longa distância em intermitência regular e incessante, dia e noite. Chegou a causar de dez a 15 baixas em 24 horas e disseminou terror pelo acampamento do Exército. Os conselheiristas também faziam linha de tiro cerrada, o que se tornou comum em todos os conflitos do século 20.

Outras batalhas - Quando a URSS invadiu a Finlândia (1939), Simo Häyhä, o "Morte Branca", matou mais de 542 soviéticos em 100 dias e virou o maior atirador de elite da História.

Aos pedaços

Corpos inteiros ou dilacerados do inimigo eram expostos em pontos salientes das estradas, abatendo o moral da tropa que chegava.

Outras batalhas - Na Segunda Guerra Mundial, japoneses e americanos foram à loucura nessa tática. Durante a Batalha de Wake Island (1941), em que as tropas dos EUA se renderam, houve decapitação de marines, entre outras atrocidades. Nos anos seguintes, os americanos buscaram vingança: cortar orelhas e pegar dentes era comum - o maior prêmio era levar para casa um crânio japonês.

O QG do Conselheiro
Rápidos e inteligentes, os homens fortes do front

Antônio Conselheiro não pegou em armas. Contou com homens de confiança, que lideraram a guerra no front. Segundo o historiador José Calasans (1915-2001), em O Estado-Maior de Antônio Conselheiro, o principal deles foi João Abade, o "chefe do povo" ou "comandante da rua", à frente da Guarda Católica, a tropa de elite do arraial. Foi descrito assim por Euclides da Cunha: "(...) Impetuoso, bravo e forte, de voz retumbante e imperativa; bem vestido sempre. (...) É o executor supremo das ordens do chefe. Castiga a palmatoadas na praça, em frente às igrejas, aos que roubam, ou vergasta as mulheres que procedem mal." Outra figura importante, o ex-soldado Pajeú é citado em Os Sertões por sua "bravura inexcedível e ferocidade rara". "Bom de tocaia", como diz Calasans, assumiu o comando após a morte de Abade. "Violento e terrível na batalha, tendo na mão direita a espingarda contra o soldado e na esquerda longo cacete para estimular vigorosamente os jagunços vacilantes na refrega. Bulhento, tempestuoso, mas de costumes simples", diz dele Euclides da Cunha no jornal O Estado de S. Paulo. Na mesma crônica, afirma que Macambira, por sua vez, era covarde, mas útil: "Velho rebarbativo e feio; inteligentíssimo e ardiloso. (...) Ninguém, porém, prepara melhor uma cilada; é o espírito infernal da guerra". O filho Joaquim Macambira era valente, e morreu tentando destruir um canhão Krupp 32. Outro soldado, Pedrão sobreviveu ao fim de Canudos. Paralítico, com quase 90 anos, em 1958, declarou a Calasans: "Faz pena um homem como eu morrer sentado".

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sherlock Holmes e Nietzsche são sucesso no metrô por R$ 2 a R$ 10

Na plataforma de embarque da estação do metrô Consolação, Márcia de Freitas primeiro comprou, por R$ 3, uma edição de contos de Machado de Assis. Cavoucou a carteira, achou uns trocados e resolveu levar também "A Volta ao Mundo em 80 Dias", de Julio Verne, também a R$ 3. Aí a máquina travou. O livro caiu em pé, impedindo a abertura da tampa de coleta. Para se queixar depois, Marta anotou telefone e e-mail da empresa 24x7 Cultural, que opera o serviço, e embarcou só com o Machado

A máquina de vender livros da Consolação é uma das 16 espalhadas por sete estações do metrô paulistano -há também uma na estação Carioca, no Rio.
Começaram a funcionar em 2003 e, segundo a operadora, acabam de alcançar a soma de 1 milhão de livros vendidos.
De clássicos nacionais a autoajuda; de obras técnicas (manuais de Excel e matemática) a compêndios sobre pensadores; de livros infantis a policiais, oferecem uma miscelânea.
E, como de quase tudo se vende, compra-se de quase tudo, inclusive muito Nietzsche. O filósofo alemão é o autor com mais títulos à venda, 19, que seduziram 36 mil compradores desde 2004. "Assim Falava Zaratustra" e "Humano, Demasiado Humano" são os best-sellers nietzschianos, 9.000 exemplares de cada um no período.
Obras de domínio público, como as de Nietzsche e Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes --e autor mais vendido no metrô--, compõem boa parte da oferta, o que ajuda a baixar o preço. Outro facilitador são as edições simples, de papel barato e pequenos formatos. Custam de R$ 2 a R$ 10 --a maioria entre R$ 3 e R$ 5.
Márcia, a do livro preso, tem 27 anos, mora em Itaquaquecetuba (Grande São Paulo), estuda letras numa faculdade na Barra Funda e trabalha num restaurante na região da avenida Paulista. Passa três horas por dia dentro de algum transporte público. "Comprei pelo preço e pela rapidez, porque não tenho tempo de parar numa livraria. Mas tenho tempo de sobra pra ler no metrô, no trem e no ônibus", explica.
O dono da 24x7, o médico Fabio Bueno Netto, 50, pensou mesmo em explorar a agilidade de um serviço expresso, ao importar máquinas projetadas para vender salgadinhos e adaptá-las para livros.
Cada equipamento comporta 280 volumes. Segundo Netto, são vendidos cerca de 500 por dia --15 mil/mês, 180 mil/ano.
Num mercado de 211 milhões de livros por ano (dados da Fipe de 2008), é pouco. Mas às vezes as máquinas alcançam façanhas, como a venda de 3.300 exemplares de "Dom Casmurro", de Machado de Assis, em dez dias, em novembro --o livro estava na lista dos vestibulares da Fuvest, da Unicamp e da PUC-SP. Um potencial best-seller tem, no mercado tradicional, tiragem inicial de 10 mil exemplares, às vezes menos.
A 24x7 compra os livros de mais de 60 editoras. O escritório-depósito da empresa é abarrotado de livros. Netto, um sujeito alto e de fala mansa, que jura que falhas das máquinas como a vivida por Márcia são raras, parece não se afetar com a bagunça. Ele conta que pede a ajuda da secretária para selecionar as obras que compra.
"O critério é de exclusão: não ponho pornografia, violência pura, política partidária nem livros doutrinários. A partir daí vejo qualidade de edição e os títulos que podem contribuir para conscientizar a população."
O Metrô, que saúda a iniciativa do empresário, cobra R$ 700 por mês por m2 (que comporta uma ou duas máquinas) pela autorização de uso, baseada num regulamento para exploração das áreas destinadas a comércio e serviços.
René, o Bom
A estação da Sé, por onde circulam diariamente 750 mil pessoas, concentra o maior número de máquinas: sete. Logo após a catraca, há duas, separadas por poucos metros.
O funcionário público René Barreto, 45, parou numa, escrutinou sem sucesso e foi até a outra, onde tampouco tinha o que buscava: a edição de bolso de "Jeremias, o Bom", o generoso personagem de Ziraldo. "Sempre levo para presentear amigos. Já comprei uns 12 nas máquinas", diz ele, que fica em média meia hora por dia no metrô. "A vantagem [do serviço] é mostrar às pessoas que elas podem comprar livro barato. Três reais é dinheiro de pinga."

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Punk na veia


Tudo começou em 1975, quando Eddie McNeil, então com 18 anos, e dois amigos de escola, John Holmstron (atual editor da revista High Times, especializada em drogas em geral e em maconha em particular) e Ged Dunn, resolveram fazer uma revista, baseados (e bota baseados nisso...) no sólido e irrefutável argumento de Holmstron conforme o qual, se tivessem uma revista, ganhariam “bebida de graça”. Nas palavras de McNeil, a coisa foi mais ou menos assim: “Holmstron queria que a revista fosse uma combinação de tudo em que a gente se ligava – reprises de televisão, cerveja, sexo, cheeseburgers, quadrinhos, filmes B e aquele rock’n’roll esquisito que ninguém além de nós parecia gostar: Velvets, Stooges, New York Dolls e Dictators”.

Posto isso, eles precisavam de um nome para a publicação. “Por que a gente não chama de Punk?”, disse McNeil. Segundo ele, “a palavra punk pareceu ser o fio que conectava tudo o que a gente gostava – bebedeira, antipatia, esperteza sem pretensão, absurdo, diversão, ironia e coisas com um apelo sombrio”. O dicionário diz que a palavra “punk” surgiu em 1596, “de origem obscura, provavelmente relacionado a spunk, ou ‘madeira podre’”. Mais tarde, tornou-se um substituto para “prostituta”, antes de significar “bobagem, coisa ordinária ou sem sentido”. Ou seja, a palavra perfeita para os fins perseguidos pelo trio.

No final do encontro, Holmstron se escalou para ser o editor-chefe da revista. A seguir, Dunn proclamou-se o executivo da “firma”. Como McNeil, além de meio lento, não disse nada, o sagaz homem-fumaça Holmstron matou a charada: “Você pode ser o punk de plantão!” E foi então que Eddie McNeil virou Legs, uma espécie de personagem de cartum em carne e osso, um dublê para as reportagens da revista. Ou seja, seu trabalho era o de exercer seu talento natural para tomar porres e se meter em encrencas.

A revista Punk, acredite, tornou-se um sucesso no circuito alternativo, vendendo 30 mil exemplares. Foram publicados 18 números antes de Legs sair da revista, em 1977, para fazer, aos 20 anos, seu primeiro programa de desintoxicação. Logo depois, ela acabou. Hoje, exemplares antigos são vendidos por pequenas fortunas na internet.

Os caras foram tocando a vida e os anos foram passando, quando Legs achou que os ingleses haviam se apropriado indevidamente do termo a partir da explosão dos Sex Pistols, em fins de 1977. Ele sabia que o punk era uma subcultura americana que já existia por quase 15 anos com Velvet, Stooges e MC5, entre outros. Mas Legs conta que, quando dizia que o movimento punk “já tinha donos”, e que eles não eram britânicos, ouvia o seguinte: “Você não entende. O punk começou na Inglaterra. Sabe, lá todo mundo está no seguro-desemprego, eles têm realmente do que reclamar. Punk é sobre luta de classes, economia decadente e blá, blá, blá.”

Embora argumentasse, lembrando a passagem de Malcolm McLaren (produtor dos Pistols) pelos Estados Unidos e as relações dele com os punks americanos, McNeil pensou em desistir: “Não dava para competir com aquelas imagens de alfinetes e cabelo espetado”. Os Pistols e o terremoto punk na Inglaterra pareciam ser o atestado final da vitória da imagem sobre a palavra. Aí é que entra Mate-me Por Favor – A História Sem Censura do Punk. O livro é a tentativa de Legs McNeil de recolocar as coisas em seu lugar – ou seja, nas sarjetas de Nova York.

E é daí que nascem as melhores histórias de Legs e do livro (que ele assina em parceria com Gillian McCain). Para falar a verdade, não são histórias. São conversas com os principais sujeitos envolvidos com os melhores e piores momentos do punk. Ficamos sabendo, por exemplo, que Lou Reed, o vovô do punk, que criou o Velvet Underground, nos anos 60, vivia num buraco de 30 dólares por mês, em Nova York, e que para pagar o aluguel vendia sangue e posava para jornais sensacionalistas: “Minha foto saiu dizendo que eu era um maníaco sexual que tinha matado 14 crianças e filmado tudo”, diz Reed.

Essa época, a pré-história do punk, revela a relação dos punks com Andy Warhol e a turma da Factory. No auge da onda flower power, ambos odiavam os hippies. “Paz e amor não tinha nada a ver com nada. E a gente não queria se sentir bem”, diz Scott Asheton, guitarrista dos Stooges, uma das bandas que despontavam.

“Em abril ou maio de 1970, a gente chegou para um show em Detroit e as coisas estavam mudando. O desemprego estava empurrando todo mundo para fora da cidade e ninguém estava querendo ouvir falar de ficar numa boa. Começamos a nos envolver com drogas pesadas”, afirma Iggy Pop, vocalista dos Stooges. O fabuloso, o excessivo, o lendário Iggy Pop é o personagem central de alguns dos melhores trechos do livro. É ele quem dá o tom dessa fase da música e do modo de vida dos caras.

Em 1971, na Califórnia, depois de passar horas tentando achar uma veia para tomar uma dose de heroína, Iggy estava atrasado para um show. Quem conta essa história é Dee Dee Ramone, dos Ramones, outra lenda do punk. “Ele estava puto e o show atrasado pra caramba. Mas não adiantava reclamar, o cara não saía do banheiro”, diz. Iggy se lembra assim da cena: “Eu ficava gritando ‘Cai fora!’ pra todo mundo e eles ficaram pensando, ‘Meu Deus, o cara vai morrer e blá, blá, blá’. Finalmente, lá estou eu no palco e mal entrei no lugar senti que precisava vomitar”. Dee Dee, novamente: “A banda finalmente entrou e Iggy parecia muito injuriado. Ele estava todo pintado com tinta prateada e só usava cueca. Ele estava lambuzado de tinta prata, mas o cabelo e as unhas estavam dourados. E alguém também tinha salpicado purpurina no cara. Eles entraram e ficaram tocando a mesma canção, sem parar, só com três acordes. E as únicas palavras eram: ‘I want your name. I want your number’ (‘quero seu nome, quero seu telefone’). Aí, Iggy olhou pra todo mundo e disse: ‘Vocês me dão enjôo’. E vomitou.”

Como se vê, nessa época o punk já tinha suas conexões com as artes plásticas e a poesia. E Patti Smith era uma dessas pontes: escritora, poetisa e linda de morrer. Outra influência era o teatro gay de John Vaccaro e as drag queens que inspiraram o visual andrógino de David Bowie. Em seguida, New York Dolls se tornou uma sensação fazendo um rock básico de rua e se apresentando com roupas de mulher. Bowie e os Dolls criaram o glitter rock, um primo chique e afetado do sujo e despojado punk.

Em 1975, aconteceu a história que deu nome ao livro (Please Kill Me, no título original em inglês). Segundo o autor, a frase foi tirada dos dizeres escritos a mão em uma camiseta de Richard Hell (do NY Dolls) feita por ele mesmo, e adornada com o desenho de um alvo de tiro. O fotógrafo Bob Gruen lembra que Hell vestia a camisa no clube CBGB’s na primeira vez em que se viram. “Aquilo era uma das coisas mais chocantes que eu tinha visto. As pessoas tinham idéias extravagantes naquele tempo, mas andar pelas ruas de Nova York com um alvo no peito, com um convite pra ser morto – aquilo foi um verdadeiro marco.”


Richard Hell não se lembra de ter usado a tal camiseta – “Eu era um tremendo covarde” –, mas recorda-se de ter forçado Richard Lloyd, guitarrista do Television, a usá-la. Lloyd, por sua vez, conta que decidiu usar a camiseta porque Hell, embora a tivesse feito, nunca a usava. Mas não parece ter sido uma boa idéia. “Usei quando tocamos no andar de cima do Max’s Kansas City, e mais tarde uns garotos chegaram em mim. Aqueles fãs me lançaram um olhar psicótico e perguntaram: ‘É sério?’ Daí disseram: ‘Se é isso que você quer, a gente ficará contente em obedecer, porque somos seus maiores fãs!’ Ficaram me olhando com aquele ar alucinado, e pensei: ‘Não vou usar esta camiseta de novo’.”

Mas aí vieram os Ramones, punks até os ossos, e o limites se foram. “Quando eu tinha 15 anos comecei a comprar droga no Central Park e levar ao Queens para revender. Dava para pagar o meu e ainda sobravam 5 dólares. Um dia voltei para o apartamento da minha mãe e ela ficou tão puta que jogou uma panela em mim, depois quebrou meus discos e atirou minha guitarra pela janela”, diz Dee Dee Ramone. “Decidi ir pra Califórnia de carona com uns caras num carro caindo aos pedaços. Eles andavam devagar montanha acima e depois vinham abaixo como uns doidos. Os caras pareciam doidos de verdade, falando coisas doentias. Falavam sobre como estavam a fim de arrancar a cabeça de alguém. Tinham um fio de arame e queriam enforcar alguém. Finalmente pararam num posto de gasolina em Indiana e assaltaram o lugar. Nós todos fomos presos por assalto a mão armada.”

É só então que Malcolm McLaren, o picareta brilhante que, antes de inventar os Sex Pistols, na Inglaterra, empresariou o NY Dolls, nos Estados Unidos, deu as caras. No desempenho da função, ele conheceu Richard Hell, cujo visual serviria de inspiração para a estética punk e que MacLaren tratou de levar para Londres. Para Legs McNeil e Gillian McCain, os Pistols roubaram descaradamente a estética e, de certo modo, o som de Hell e do Dolls.

“A estratégia de Malcolm para os Pistols era a teoria do caos. Estava fora do controle e não tinha nada a ver com música. Tinha a ver com o fenômeno aterrorizante que estava chegando da Inglaterra”, diz Danny Fields, que foi empresário de Iggy Pop e dos Ramones. Bob Gruen lembra-se da excursão do Sex Pistols nos Estados Unidos: “Os shows da banda eram o caos, mas a vida na turnê até que era bem comum. Basicamente a gente bebia cerveja, passava uns baseados e ouvia reggae. Mas daí o ônibus encostava, as portas se abriam, pintavam as câmeras de TV e os fãs e a loucura começava”. Segundo ele, a presença de público causava comportamentos esquisitos no grupo. “Uma noite chegamos numa parada de caminhoneiros e eu e Sid Vicious descemos para comer. Eu pedi um sanduíche e Sid pediu uns ovos. Estava tudo normal até aparecer um cowboy com a família. O cara reconheceu Sid e nos convidou para sentarmos com eles. O cowboy disse: ‘Você é o Vicious, você consegue fazer isso?’ – e apagou o cigarro na palma da mão. Então Sid pegou uma faca e furou a própria mão, o sangue começou a escorrer até chegar ao prato de ovos. Mas Sid não se importou e continuou a engolir o rango.”

Durante a estada na América, Nancy Spungen, namorada de Sid Vicious, foi morta a facadas no quarto do casal. Ele, o único suspeito, foi preso, pagou 50 mil dólares de fiança, mas não chegou a ser julgado. No dia em que saiu, tomou uma overdose de heroína e morreu.

Chegamos à década de 80 e o fim é melancólico: as bandas terminam e muita gente morre. Especialmente tristes são as mortes de Johnny Thunders e Jerry Nolan, ex-Dolls e ex-Heartbreakers, ambos vitimados pelas drogas.

Saiba mais

Livro

Mate-me Por Favor, vols 1 e 2, Legs McNeil e Gillian McCain L&PM, 2004 - 566 páginas, 36 reais

sábado, 19 de dezembro de 2009

Histórias infantis: Quem te medo do Lobo Mau?

No século 16, os contos de fada não eram brincadeira de criança. Sexo, violência e fome apimentavam as tramas inventadas por camponesas nas poucas horas de diversão.


E se o lenhador não chegasse no fim da história para salvar Chapeuzinho Vermelho e sua vovozinha? E se a menina, antes de ser devorada pelo Lobo Mau, ainda fosse induzida por ele a beber o sangue da avó, além de tirar a roupa e deitar-se nua na cama? Você contaria tal historinha a seu filho? Os camponeses da França do século 16 contavam – e os detalhes violentos e libidinosos desta e de outras histórias que povoam o nosso imaginário infantil não param por aí. Se você nunca ouviu as versões apimentadas, foi por obra e graça de escritores como o francês Charles Perrault, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen, que entre o fim do século 17 e o início do século 19 pesquisaram, recolheram e adaptaram as histórias contadas por camponesas criadas em comunidades de forte tradição oral.

Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, João e Maria, A Bela Adormecida e outros contos de fadas tão familiares foram passados de geração para geração por trabalhadores analfabetos, que se sentavam à noite em volta de fogueiras para contar histórias. Nestas reuniões, chamadas de veillées pelos franceses, as mulheres narravam seus casos enquanto fiavam e teciam, o que originou expressões como “tecer uma trama” e “costurar uma história”. Os homens consertavam suas ferramentas ou quebravam nozes. No universo dos camponeses franceses pré-Revolução, nos séculos 17 e 18, não havia tempo para descanso. Durante o Antigo Regime, diversão e trabalho misturavam-se, como na história da pobre Gata Borralheira.

Sem papas na língua, as contadoras de histórias caprichavam nos detalhes, digamos, escabrosos. Na versão original, A Bela Adormecida, por exemplo, foi violada por um anão durante o sono. Isso acontecia porque, naqueles tempos, essas não eram exatamente histórias infantis. “Era uma cultura rústica. Não havia distinção entre infância, adolescência e idade adulta. As crianças vestiam-se como adultos, ouviam e falavam como adultos, participavam do mundo do trabalho e do mundo familiar como adultos”, diz o historiador Antônio Edmílson Martins Rodrigues, professor das universidades UERJ e PUC-RJ. “Esses contos eram galhofas, que serviam para unir a comunidade, mas já com a função de educar: não saia da estrada, obedeça ao mais sábio, não ande sozinho à noite, é que o diziam”, completa.

Tanta inspiração nascia do cotidiano: a segurança da casa e da aldeia opunha-se aos perigos da estrada e da floresta, como em Chapeuzinho Vermelho. A crueldade fazia parte do roteiro pois era pobreza e morte que se esperava do mundo no século 16. A fome, o maior mal daquele tempo, protagonizava muitas das narrativas, como em João e Maria, em que os pais abandonam as crianças na floresta por não ter como alimentá-los. “De forma simbólica ou realista, produtos culturais tematizam valores e aspectos sociais. Por isso é fácil ouvi-los ou lê-los e deixar-se envolver por eles”, diz Marisa Philbert Lajolo, professora de Teoria e História Literária da Unicamp. “O exemplo clássico é ver no abandono de Joãozinho e Maria tanto o registro de um comportamento adulto em época de grande fome quanto a representação do medo infantil de ser abandonado”.

O mundo dos contos de fada só fica cor-de-rosa quando começa a ser feita a distinção entre infância e vida adulta. “A invenção da infância ocorre no século 18, quando as casas são separadas em quarto, sala e cozinha, e as tarefas e interesses também começam a ser divididos. É quando a redenção chega aos contos e se enfatiza o final feliz”, diz Antônio Edmílson. Foi nesse momento da história que entraram em ação Perrault, os irmãos Grimm e, mais tarde, Andersen. Eles não foram os primeiros a passar para o papel as histórias dos camponeses, mas foram os mais bem-sucedidos em sua adaptação ao gosto da nobreza e das crianças. Perrault, por exemplo, incluiu comentários sobre os costumes e a moda das elites em suas versões para dar uma cara à nação francesa.

O que o escritor fez em seu Contos da Mamãe Gansa, de 1697, de certa forma foi o que os contadores faziam nas aldeias: adaptou um fio condutor comum a sua realidade, eliminando detalhes violentos ou de conteúdo sexual – e incluindo a “moral da história”. A adaptação ao gosto do contador, aliás, é uma marca que atravessa os tempos. Em uma história da China do século 9, por exemplo, uma moça chamada Yeh-Hsien é ajudada por um peixe mágico, que lhe dá chinelas de ouro para a festa da aldeia. Na volta para casa, ela perde uma das chinelas, que vai parar nas mãos do governante. No fim, o chefe local apaixona-se pelos pés pequenos de Yeh-Hsien, em consonância com os costumes chineses de enfaixar os pés das meninas para que não crescessem. As diferenças culturais estão claras, mas pode-se reconhecer as origens de Cinderela no conto. “Uma história contada oralmente pode ser adaptada à situação e aos ouvintes. Já um conto escrito tem sua forma fixada. Mas o que a escrita fixa, o leitor e o ouvinte reescrevem, adaptando à sua própria experiência”, diz Marisa Lajolo. É, quem conta um conto sempre aumenta um ponto, seja na China do século 9, na França do século 18 ou nos dias de hoje.

Abaixo estão algumas versões desconhecidas de histórias famosas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

[A origem dos contos de Fada] Chapeuzinho Vermelho, Os três Porquinhos e Cachinhos Dourados

Na França do século 18, Chapeuzinho Vermelho não usava um chapeuzinho vermelho. E o Lobo matava a vovó, enchia uma jarra com o seu sangue e fatiava sua carne. Quando a menina chegava, ele, já travestido, mandava que ela se servisse do vinho e da carne. Depois, pedia à menina para se deitar nua com ele. A cada peça de roupa que tirava, Chapeuzinho perguntava o que fazer, e o lobo respondia: “Jogue no fogo. Você não vai precisar mais”. E ela não perguntava dos olhos, orelhas ou nariz do algoz. Dizia, sim: “Ah, vovó, como você é peluda!”, ao que ele respondia: “É para me manter mais aquecida”. Citava ainda seus ombros largos e suas unhas compridas, em comentários sensuais, antes de dizer: “Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!”. E a história terminava com o lobo devorando a garota. Sem caçador para salvá-la, sem final feliz e sem medo de mexer com tabus.

Na versão dos irmãos Grimm, do início do século 19, não tem banquete canibal, nem strip-tease ou mortes. Chapeuzinho, incitada pelo Lobo, desvia-se do caminho para colher flores. Enquanto isso, o lobo devora a vovozinha e veste suas roupas. Quando a gorota chega, faz as perguntas clássicas: Por que a senhora tem orelhas tão grandes?” É para te ouvir melhor”, responde o Lobo, e assim sucessivamente, passando pelos olhos, o nariz e as mãos, até a pergunta fatal: “Por que a senhora tem essa boca enorme? “É para te comer!”, diz o Lobo, devorando-a. Os Grimm incluíram na trama ainda a figura do caçador, que corta a barriga do Lobo e liberta a avó e a neta. Chapeuzinho então joga pedras na barriga do Lobo, que morre. E aprende a obedecer a mãe, a andar sempre no caminho certo e a não dar papo para lobos..

Os Três Porquinhos

Na versão de 1890, de Joseph Jacobs, os dois primeiros porquinhos são comidos pelo Lobo Mau. Quando o lobo invade a 3ª casa pela chaminé, ele cai num caldeirão de água fervente e morre. O 3º porquinho aproveita e faz um ensopado, e come o lobo.

Cachinhos Dourados

Uma das versões conta sobre a invasão de uma raposa e não de uma menininha de cachos dourados. Quando o ursão encontra a raposa na cama do ursinho, a joga pra fora da casa com tanta força, que ela quebra todos os ossos.

Em outra versão igual a que nós conhecemos, em vez da menina, é uma velhinha maltrapilha que invade a casa. A história é cheia de números 3, e há ainda uma versão onde a invasora sofre 3 punimentos: fogo, água e depois é atirada de uma torre.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

[A origem dos contos de Fada] A Bela e a Fera

A história de Andrew Lang de 1889 se difere bem pouco da história que nós conhecemos. Nela, não há objetos mágicos nem inimigo da Fera. Em uma outra versão, a Fera é descrita como alguém que se parece com uma cobra.



"Nessa história o mercador tem outras duas filhas interesseiras e três filhos além de Bela. Quando o mercador viaja, elas pedem coisas caras e Bela pede apenas uma rosa vermelha. No meio da jornada o mercador encontra um castelo, lá dentro ele tem tudo que precisa, como comida e lareira pra se aquecer. Mas quando vai embora, rouba uma rosa para sua filha. Então a Fera aparece e fica furiosa e diz que só o perdoa se ele lhe trouxer uma de suas filhas.

O mercador volta para casa e Bela é a filha que se oferece para ficar com Fera. Chega no castelo pensando que vai ser devorada mas ele a trata como uma princesa. Além disso, Fera deixa o mercador encher dois baús com riquezas e levar para sua casa.

Toda noite a Fera pede Bela em casamento e ela recusa. Um dia Bela pede para ir visitar seu pai, pois está preocupada e com saudade. A Fera deixa, mas a Bela deve voltar em dois meses, do contrário a Fera morrerá. Um dia Bela sonha com a Fera morrendo e se assusta e resolve voltar na mesma hora. Quando chega no castelo a Fera está realmente morrendo e Bela percebe o quanto o ama e diz. Então ele acorda e a pede novamente em casamento. Quando ela aceita, ele se transforma em um lindo príncipe."

[A origem dos contos de Fada] A Pequena Sereia

O conto é de 1837 de autoria de Hans Christian Andersen. A Disney usou essa versão mas trocou o final trágico por outro feliz…

"A pequena sereia possuia 5 lindas irmãs mais velhas, filhas do Rei do Mares. Quem cuidava das 6 meninas era a avó. E quando elas completavam 15 anos ganhavam a permissão de ir à superfície. Na sua ida à superfície, a pequena sereia se apaixona por um príncipe de um navio (e o salva qdo o navio afunda). Ela vai atrás da bruxa do mar para ganhar pernas, mas sob algumas condições: ela perderá a voz, a cada passo sentirá dor como se pisasse em facas e por fim, se o príncipe não se casar com ela, ela estará condenada a virar espuma do mar.

Depois da transformação ela se aproxima do príncipe e ele passa a amar, mas como se ama uma criança e não uma esposa.Algum tempo depois, um casamento é arranjado entre o príncipe e uma princesa de um reino próximo. Ele confunde a princesa com sua salvadora e fica noivo dela.
No dia antes do casamento, as irmãs da sereia aparecem. Elas deram seus cabelos para a bruxa em troca de uma faca, que se cravada no coração do príncipe, dará a chance de a pequena sereia continuar viva e voltar a ser sereia como antes. Mas a pequena sereia não tem coragem de realizar tal ato e acaba virando espuma do mar."

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

[A origem dos contos de Fada] Cinderela

Incesto, assassinato, mutilação... Assim eram as versões primitivas de Cinderela. Em uma das histórias, a moça vira empregada para fugir do assédio sexual do pai. Em outra, a madrasta, tentando matar a enteada, joga uma de suas filhas na fogueira. Numa terceira, a madrasta deixa Cinderela sem comer, numa época em que a fome rondava as aldeias. Há outra, registrada por Giambattista Basile na coletânea Pentameron, do início do século 17, em que o pai de Cinderela casa-se com uma mulher que a trata mal, quando ela queria que ele se casasse com a governanta. Cinderela, então, assassina a madrasta.

A versão dos irmãos Grimm para Cinderela ainda era sangrenta. Nela, a Gata Borralheira plantou uma aveleira no túmulo da mãe e a regou com lágrimas. Na árvore morava um pássaro, que a cobriu de ouro para três dias de baile. No terceiro dia, o príncipe pegou o sapatinho da desconhecida. Na hora de experimentar nas donzelas do reino, uma irmã de Cinderela cortou o dedo do pé e a outra o calcanhar. Claro, o sapatinho só serviu na dona. E, no dia do casamento, duas pombas perfuraram os olhos das irmãs. Na versão de Perrault, famosa hoje, não há mutilações, cegueira ou pássaros mágicos. E, sim, uma fada-madrinha.

Abaixo a versão dos Irmãos Grimm.



"Pai, mãe e filha eram uma família feliz até que a mãe ficou muito doente. Ela chamou a filha e disse-lhe para plantar uma árvore em seu túmulo, e sempre que precisasse de algo, fosse lá chacoalhar a árvore. Ela plantou e regou com suas lágrimas. Algum tempo depois o pai se casou com outra mulher, que já tinha duas filhas más que apelidaram a menina de Cinderela. A madrasta logo botou a menina para trabalhar como empregada.

Um dia, o rei anunciou 3 bailes e Cinderela foi obrigada a ajudar as irmãs a se arrumar para o primeiro baile. Ela não tinha vestido e tinha que separar lentilhas antes que as irmãs voltassem. Depois que elas sairam para o baile, dois pássaros bateram na janela e se ofereceram pra ajudar Cinderela com as lentilhas. No dia seguinte as irmãs contaram do baile para Cinderela (que tinha visto tudo da janela). E na mesma noite, teve outro baile. Dessa vez Cinderela não pôde ir pq teve que separar sementes. Os pássaros novamente a ajudaram.

Quando eles acabaram, os pássaros disseram pra ela ir ao túmulo da mãe, ela sacudiu a árvore e ganhou um esplêndido vestido prata com acessórios. Mas ela tinha que voltar antes da meia-noite. Ela voltou pra casa e encontrou uma carruagem com serventes e cavalos para levá-la ao baile. Assim que dançou com ela o príncipe percebeu que ela seria sua esposa. Antes da meia-noite ela voltou para casa. No dia seguinte as irmãs más contaram sobre a misteriosa princesa que dançou com o príncipe. E na mesma noite haveria o 3º baile. Cinderela teve que ficar separando ervilhas e novamente os pássaros a ajudaram e ela chacoalhou a árvore de sua mãe. Dessa vez, Cinderela ganhou um vestido dourado com pedras preciosas e sapatilhas feitas de ouro. O príncipe já a esperava na escadaria e dessa vez fez muitas perguntas à seu respeito.

Cinderela quase perdeu o horário e teve que sair correndo, perdeu um dos sapatinhos e ainda perdeu a carona, ficando no meio da rua com suas roupas velhas. O príncipe não a viu, mas encontrou seu sapatinho de ouro e proclamou que se casaria com a pessoa cujo pé coubesse nele. Chegou a vez das irmãs experimentarem. A madrasta as chamou e disse que se o sapatinho não coubesse, elas deveriam usar uma faca e cortar um pedaço de seus pés. A irmã mais velha experimentou e não serviu, então cortou seu calcanhar e o sapatinho serviu. O príncipe já estava levando ela para o castelo quando os pássaros amigos de Cinderela cantaram dizendo que tinha sangue no sapato. O príncipe viu e levou a impostora para casa.

Então a segunda irmã experimentou os sapatos e precisou cortar os dedinhos para servir. Novamente o príncipe estava levando ela pro castelo e os pássaros deduraram o sangue. O príncipe voltou para a casa e perguntou se havia outra garota. A madrasta não queria, mas ele a fez chamar Cinderela. O sapatinho serviu e ele reconheceu sua noiva. Eles vão se casar e quando as irmãs vão para assistir, os pássaros bicam seus olhos e elas ficam cegas."

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

[A origem dos contos de Fada] Branca de Neve e os Sete Anões

O conto da Branca de Neve ficou popular através da versão dos Irmãos Grimm (com o nome Little Snow-White), que haviam ouvido a história de duas irmãs chamadas Jeannette e Amalie Hassenpflug...



"Branca de Neve tinha 7 anos quando provocou a ira da rainha-madrasta por causa de sua beleza. Então a rainha convoca um caçador e pede que leve Branca de Neve para a floresta e a mate, trazendo seus pulmões e seu fígado para provar a morte. O caçador tem pena de Branca de Neve e a deixa fugir, levando pra rainha os órgãos de um javali. Então a rainha come os órgãos. Enquanto isso, Branca de Neve acha a casa dos anões e em troca de lavar, passar, costurar, limpar e arrumar a casa, eles a deixam ficar.


Ao descobrir que Branca de Neve ainda está viva, a rainha vai até a casa dos anões 3 vezes. Primeiro, ela leva um corpete de seda, e tenta matar a garota apertando o corpete bem forte. Não funciona, então ela volta com um pente envenado e tenta a matar penteando seus cabelos. Na terceira vez ela vai com a maçã envenenada. Dessa vez os sete anões chegaram tarde demais e nada fez a Branca de Neve acordar. Como sua aparência ainda era boa e ela tinha bochechas coradas, eles não tiveram coragem de a enterrar e fizeram uma cripta de vidro para ela.

Um dia um príncipe viu a cripta com a princesa e quis comprá-la dos anões. Os anões se recusaram a vendê-la, mas acabaram dando para o príncipe com pena, pois ele pediu muito. O príncipe tinha empregados para carregarem a cripta, mas um deles tropeçou e caiu, derrubando o caixão de vidro. Com a queda, Branca de Neve cospiu o pedaço de maçã envenenada e voltou à vida.

O príncipe e Branca de Neve planejam então uma festa de casamento e convidam a madrasta má (que não sabe que Branca é a noiva). Ela se arruma e quando se olha no espelho e pergunta, descobre que Branca está viva. Ela decide ir ao casamento mesmo assim e fica apavorada quando vê que a noiva realmente é Branca de Neve. Então, colocam um par de sapatos de ferro na brasa. Tiram da brasa e vestem na madrasta, a fazendo dançar até cair morta."

domingo, 13 de dezembro de 2009

[A origem dos contos de Fada] A Bela Adormecida

Em relatos franceses e espanhóis do século 14 ao 16, os detalhes de A Bela Adormecida arrepiam. O príncipe encantado já é casado e viola a princesa durante o sono. Ela tem dois filhos com ele, ainda dormindo, e é despertada não por um beijo, mas pela mordida de um dos filhos enquanto os amamenta. A sogra do príncipe descobre tudo e tenta matar e comer a princesa e as crianças bastardas.

No início do século 17, o italiano Giambattista Basile escreveu a Pentameron, com sua versão para A Bela Adormecida, intitulada O Sol, a Lua e a Tália. A princesa chamava-se Tália, e seus filhos Sol e Lua. Ela dorme após espetar o dedo, e é acordada quando o filho suga a farpa. A versão se assemelha à da tradição oral, com a diferença de que é a esposa do príncipe que manda matar a princesa. Já no fim do século 17, em Contos da Mamãe Gansa, Perrault publica A Bela Adormecida no Bosque, em que um príncipe, belo e solteiro, desperta a princesa. A versão popular hoje é dos irmãos Grimm, do século 19. A princesa pica o dedo no fuso, dorme cem anos e acorda com um beijo do príncipe encantado.

O filme da Disney foi lançado em 1959 e é baseado na versão de Perrault. A maior parte da trilha sonora do filme são adaptações das canções do balé de Tchaikovsky.

Abaixo segue a versão do italiano Giambattista Basile:


"Uma farpa de linho entra sob a unha da princesa Tália e ela imediatamente cai morta. O rei coloca sua filha em uma cadeira de veludo do palácio, tranca e parte para sempre, pra apagar a lembrança de sua dor. Algum tempo depois, um príncipe que estava por ali caçando, encontra Tália. Ele apaixona-se por sua beleza mas como não consegue acordá-la, a estupra e vai embora. Nove meses depois Tália dá a luz a gêmeos, Sol e Lua, mas continua adormecida. Um dia um dos bebês não encontra seu seio para mamar e coloca a boca no dedo da mãe e suga. Suga com tanta força, que extrai a farpa e faz despertar.

Um dia o príncipe lembra de “sua aventura” com Tália e resolve ir visitá-la. A esposa do rei descobre o caso e manda cozinhar as duas crianças e serví-las para o rei. Mas o cozinheiro prepara cabritos no lugar. Depois a rainha manda buscar Tália para lançá-la ao fogo, mas o p príncipe chega e lança a própria esposa no lugar de Tália. Ele casa-se com Tália e vive com ela e seus filhos..."

[Curiosidades Literárias] Qual foi a biblioteca mais importante que existiu?


Para começar, "importância" é um critério bem subjetivo. Não dá para dizer, por exemplo, que a biblioteca mais importante é a maior. Se fosse assim, a campeã seria a biblioteca do Congresso Americano, em Washington, nos Estados Unidos. É lá que está o maior acervo do mundo: atualmente, são 119 milhões de livros espalhados em mais de 850 quilômetros de prateleiras! Claro que é um centro importante, mas nada que se compare àquela que muitos historiadores consideram a "mãe" das bibliotecas modernas, que reunia os maiores cérebros do mundo. Isso numa época em que quase ninguém sabia ler ou escrever, e que o conhecimento humano sobrevivia basicamente por relatos orais. Estamos falando da biblioteca de Alexandria. Erguida no século 3 a.C., a biblioteca almejava "abrigar todo o conhecimento produzido pelo homem". Quase chegou lá: o lugar chegou a ter 700 mil textos, uma enormidade para a época. No infográfico ao lado, a gente recriou um dia comum no período de glória da biblioteca, no século 2 a.C. Essa grandiosidade ruiu a partir do século 3, quando o imperador romano Aureliano invadiu Alexandria e, acredita-se, destruiu o lugar. Na época, os nobres egípcios salvaram boa parte dos textos. Mas no ano de 642, o general árabe Amr ibn al-As conquistou a cidade e perguntou a seu soberano, o califa Omar, o que fazer com os livros. O califa disse que o único livro indispensável era o livro de Alá - o Alcorão, obra sagrada dos muçulmanos. Amr, então, distribuiu os livros pelas 4 mil casas de banho de Alexandria para que eles fossem usados como combustível das caldeiras.

Relíquia egípcia

Biblioteca de Alexandria reunia o supra-sumo do saber na Antiguidade

O CATALOGADOR

A tarefa de ordenar os papiros de Alexandria por temas coube ao poeta grego Calímaco (300-240 a.C.). Usando ordem alfabética para classificar os textos - uma novidade para a época -, Calímaco organizou as obras em oito assuntos: teatro, oratória, poesia lírica, legislação, medicina, história, filosofia e miscelânea

O PÚBLICO

Apenas filósofos, matemáticos e nobres estrangeiros que recebessem a permissão do rei do Egito podiam freqüentar a biblioteca. A situação só mudou quando os romanos conquistaram o país, em 30 a.C. A partir daí, a biblioteca virou instituição pública, aberta a todos

OS PAPIROS

Os "livros" da biblioteca eram os papiros, espécie de papel enrolado em que se escrevia. Cada um deles media 25 centímetros de largura e até 11 metros de comprimento. Calcula-se que a biblioteca começou com 200 papiros. No século 2 a.C., esse número pode ter aumentado para um total de 700 mil papiros

O LUGAR

Provavelmente, a biblioteca ocupava uma área grande no Museu Real de Alexandria - não dá para ter certeza porque o espaço foi destruído no século 3. Também há poucos detalhes sobre a decoração. Alguns relatos falam sobre uma placa pendurada na entrada do local. Nela estaria escrito "lugar de cura da alma"

OS BIBLIOTECÁRIOS

Além de classificar rolos de papiros, os bibliotecários organizavam textos antigos. Os poemas clássicos Ilíada e Odisséia, atribuídos ao grego Homero e feitos entre os séculos 9 e 8 a.C., foram estruturados na biblioteca nos capítulos que se conhece hoje pelo grego Zenódoto de Êfeso, no século 3 a.C.

AS ESTANTES

Em sua origem grega, um dos significados da palavra biblioteca é "estante". Em Alexandria, as estantes ficavam num longo corredor, em reentrâncias próximas à parede. Em algumas recriações, as prateleiras aparecem em forma de X, o que facilitava o armazenamento e o manuseio dos papiros

OS ESCRIBAS

A profissão deles era copiar manuscritos. Em Alexandria, os escribas tiveram trabalho de sobra. Durante o reinado de Ptolomeu III (246-221 a.C.), um decreto mandava confiscar livros encontrados com estrangeiros. Os escribas reproduziam os manuscritos e só então devolviam os textos a seus donos

O IDEALIZADOR

A biblioteca foi erguida no século 3 a.C. por ordem do general macedônio Ptolomeu I, a quem Alexandre, o Grande, entregou a administração de Alexandria após a conquista do Egito. Sob a dinastia ptolemaica, que durou até o ano 30, a biblioteca tornou-se a maior de toda a Antiguidade

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A tempestade Maiakovski

A vida intensa e os versos extraordinários
do maior poeta russo do século XX

O poeta Maiakovski e, ao fundo,
reprodução da capa desenhada por seu amigo,
o artista plástico Alexander Rodchenko,
para o livro Maiakovski Sorri, Maiakovski Ri, Maiakovski Zomba

O que pensar de uma tempestade? Vladimir Maiakovski (1893-1930), o maior poeta russo da era soviética, se expôs, como uma força da natureza, a todo tipo de contradição: buscou destruir o passado literário, mas ao final defendeu a tradição dos grandes poetas de seu país, como Alexander Pushkin e Andrei Biéli. Apresentou-se como o escritor do futuro – do apogeu da máquina, da eletricidade e do urbanismo –, e se viu emaranhado na burocracia e nos equívocos que sucederam na União Soviética, após a Revolução de 1917. Como a tempestade, o poeta foi excessivo e intenso na vida e na obra, mas decidiu interrompê-las em pouco tempo: suicidou-se com um tiro aos 37 anos incompletos. Como deve ser no caso de um grande poeta, a biografia Maiakovski: o Poeta da Revolução (tradução de Zoia Prestes; Record; 559 páginas; 68 reais) trata tanto da arte longa quanto da vida breve, ambas atravessadas não apenas pela Revolução Russa, mas também por uma guerra mundial e pelo dogmatismo sanguinário de Joseph Stalin. Embora sempre simpática ao autor de A Plenos Pulmões, a biografia produzida por Aleksandr Mikhailov (1922-1994), crítico especializado em poesia russa do século XX, não deixa de apontar o dilema torturante de que Maiakovski jamais pôde escapar: poesia ou política?

Tinha razão o escritor Kornei Tchukovski: "É muito difícil ser Maiakovski". Forças contraditórias agiram sobre o poeta na arena política e cultural soviética. Seu otimismo quanto ao futuro da URSS e a vitalidade com que expunha a utopia de um "estado-comuna" – sem burocratas e sem elite – acabaram produzindo poemas panfletários, inferiores. A maior admiração política do poeta era o revolucionário Vladimir Lenin, morto em 1924. A biografia mostra de que modo o poeta enalteceu o líder político: "apesar de mostrá-lo humano, apresenta-o livre de todas as fraquezas, numa auréola de santidade". Havendo sempre manifestado interesse em encontrá-lo para conversas e leituras de poemas, escreveu a ode Vladimir Ilich Lenin, sob o impacto da morte do líder, na qual lamentava: "Temo / que o mausoléu / e as funções protocolares (...) / possam esconder / a simplicidade de Lenin". Mas, em que pese a oficialidade desses poemas próximos de peças de propaganda partidária, além de textos de "encomenda social", Mikhailov observa o "dualismo na consciência" do escritor – dualismo que desencadeou sua tragédia. Um sintoma dele é a peça satírica O Percevejo, cujo alvo principal é a estrutura burocrática do stalinismo. Escrito em 1929, um ano antes do suicídio do poeta, O Percevejo é a face melancólica e exausta de quem havia escrito, em 1915, o longo poema Uma Nuvem de Calças, notável em seu otimismo e na sua crença revolucionária.

Escrito sem jargão e sem aparato de notas, o livro de Mikhailov também se apresenta como painel de época. Maiakovski surge como figura central do futurismo. Em 1912, com Bofetada no Gosto Público, o escritor, nascido na Geórgia, divulgou o manifesto de um movimento que tinha, inicialmente, propósitos destrutivos. Ao condenar a tradição lírica dos que faziam odes ao luar e cantavam as paisagens do interior, o poeta levou a extremos a idéia de engajamento. O biógrafo é preciso na sua observação: o futurismo de Vladimir Maiakovski e de seu grupo é um fenômeno russo, marcado por tradições nacionalistas e com tendência à valorização dos sentidos e dos sons das palavras, bem como pelo propósito de se dirigir a milhões de pessoas. O poeta ingressou, assim, numa via experimental e de vanguarda: insistia que a nova arte deveria provocar uma "alteração do olhar", já que as coisas haviam sido transformadas pela vida urbana. Versos e palavras eram abruptamente cortados para valorizar formas novas, como na imagem cubista. Antes mesmo de ser poeta, Vladimir Maiakovski descobrira em si talento para o desenho, que demonstrou nos milhares de cartazes produzidos tanto para a divulgação da poesia como para a ação revolucionária. Todo esse conjunto inovador se somava ainda ao gosto do poeta pela declamação em grandes auditórios e por apresentações anárquicas em que surgia com uma escandalosa camisa amarela. Para muitos detratores, ele era o "valentão da periferia", o "saqueador futurista" com "vozeirão de arrombador".

O leitor brasileiro conta com considerável acesso à obra de Maiakovski, apesar das dificuldades da língua original. Estão a seu alcance Minha Descoberta da América (Martins), relato de uma viagem do poeta monoglota, sempre nervoso no estrangeiro, com passagens marcantes pelo México e pelos Estados Unidos. Ou Poética Como Fazer Versos (Global), que traz a síntese de seu pensamento estético, com o imperdível capítulo "Os operários e os camponeses não vos compreendem". Mais importantes são as coletâneas Poemas (Perspectiva), na criativa tradução de Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos, e Antologia Poética (Leitura), organizada e traduzida por E. Carrera Guerra e hoje somente encontrada em sebos. Esses dois livros capturam um pouco das melhores qualidades literárias de Maiakovski: a busca de comunicação direta com o leitor, sem que para isso haja rebaixamento da linguagem; e a crença no futuro (que ele sabe inapelavelmente urbano). O essencial são os versos, como sabia o próprio Maiakovski e o afirmou em Eu Mesmo: "Eu sou poeta. É o que me faz interssante".

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Vampiros:mortos, mas não muito

O mito do vampiro assume as mais diferentes formas e cortes de cabelo, mas sua essência imutável assombra o mundo todo desde o surgimento da civilização. Por que a humanidade inteira precisa desses mortos vivos que bebem sangue?


Os japoneses o chamavam de kappa. Os árabes, de alghul. Os chineses temiam sobretudo o kiang shi. Em comum, todas essas criaturas eram vampiros. O vampiro é um ser universal, parte do repertório de civilizações de todo o mundo – dos indianos aos maias, dos bantos africanos aos aborígines australianos. “Que os mortos possam voltar para afligir os vivos é uma crença que se perde na noite dos tempos. E raramente os fantasmas são dotados de boas intenções”, diz Claude Lecouteux, autor de História dos Vampiros – Autópsia de um Mito e professor de literatura medieval na Universidade Sorbonne, em Paris, França.

E o que era exatamente um vampiro? Independentemente da cor da pele ou do comprimento do cabelo, era um morto vivo. Tal como os fantasmas, assombrava os vivos. Ao contrário daqueles – por definição incorpóreos – era feito de carne e osso. Saía do túmulo, preferencialmente à noite, e estrangulava ou sugava o sangue de suas vítimas – homens, mulheres, crianças, e às vezes até vacas e cachorros. Nem sempre tinha aparência humana, podendo adotar formas animais (um cão, um cavalo, um corvo, um morcego) ou vegetais (uma moita de urtiga). E mais: bichos perfeitamente saudáveis também podiam, do dia para a noite, tornar-se vampiros. Como explicar uma criatura tão ubíqua quanto improvável?

Os vampiros no mundo

Para entender o vampiro, é preciso primeiro compreender o mundo dos nossos ancestrais. Até o fim da Idade Média, ninguém cogitava uma explicação racional ou científica para “mortos” que voltavam à vida ou defuntos naturalmente mumificados. Ressurreições miraculosas ou diabólicas eram quase cotidianas. Segundo os cronistas da época, santos voltavam depois da morte para operar milagres, como santa Liduvina de Haia, em 1433, ou seu corpo não apodrecia, como ocorreu com santa Catarina de Bolonha, em 1463. Isso aumentava o fervor popular. Já os vampiros saíam do seu túmulo para espalhar o terror. Seu corpo se recusava igualmente a apodrecer. Alguns, do sexo masculino, eram encontrados com o pênis em ereção dentro do caixão. Inteiramente nus, pois comiam a sua mortalha. Num caso narrado por um monge alemão do século 12, um vampiro estuprou fiéis dentro de uma igreja – moças e anciãs... Esses detalhes obscenos chocavam o homem desde a Antiguidade.

Para o homem medieval, explicar o vampirismo era simples: Diabolus simia Dei. Traduzindo: era uma forma de Satã imitar Deus. As maldades e estripulias do vampiro eram o equivalente maligno dos milagres dos santos medievais. Nesse clima, até Martinho Lutero teve de se ver frente a um caso de vampirismo, em princípios do século 16, na cidade alemã de Wittenberg. Sua resposta ao problema, é claro, foi teológica: “Se o povo não acreditasse em tais coisas, isso não lhes causaria mal algum, pois se trata de uma prestidigitação diabólica”. Depois, ao que consta, Lutero orou ao lado do túmulo do suposto vampiro, que nunca mais importunou a cidade.

Vampiros também tinham o poder de tomar outras formas que não a sua original em vida. Muitos se transfiguravam em ratos, morcegos, mas também em mulheres sedutoras. Na Grécia do ano 217, o filósofo Apolônio de Tiana teria desmascarado a noiva do amigo Mênipo em plena festa de casamento: ela seria uma empusa, denominação dada às belas sanguessugas de maridos incautos. A noiva apresentava traços inequívocos de um vampiro (segundo os critérios da Grécia antiga): a fixidez das pupilas e o medo ao manjericão, planta tida como mágica. Desmascarada, a empusa atirou-se ao mar, e seu corpo nunca foi encontrado.

Ainda sobre vampiras casamenteiras: na China do século 9 surgiram duas noivas exatamente iguais em uma cerimônia. Uma delas era um kiang shi. A noiva verdadeira, subindo nas tamancas, convidou a impostora para resolverem o assunto numa sala adjunta ao salão principal. Má idéia. Quando as duas entraram no recinto fechado, os convidados ouviram um grito horrendo. Acorrendo ao local, descobriram, para terror geral, a noiva morta, tendo ao seu lado um assustador pássaro negro, que, voraz, bebia o seu sangue e bicava as suas vísceras. Muitos kiang shi possuíam longas cabeleiras esverdeadas ou esbranquiçadas, fruto da ação de fungos nos caixões. Já os vampiros femininos da Arábia tinham cabelos negros belos e sedosos. Na Arábia, as rotas comerciais para a China ou para a Síria eram infestadas de alghuls, os traiçoeiros vampiros do deserto, que inspiraram até As Mil e Uma Noites.

E por que existiam vampiros? Para os chineses, o homem tinha uma alma superior (hun) e outra inferior (p’o). Os restos mortais, quando intactos, podiam ser tomados integralmente pela parte baixa do ser. Numa reação alquímica com o sol ou a lua, o cadáver era animado de volta à vida – compreensivelmente, com as piores intenções possíveis. Na Europa medieval, todavia, tudo girava em torno da questão moral: quem morria em pecado grave ou ia para o inferno ou ficava preso a esta vida sob uma forma degradante, como a dos vampiros. Alguns já recebiam a condenação em vida, alternando o estado humano com um estado monstruoso. Era o caso dos lobisomens. Muitos lobisomens, ao morrer, viravam vampiros.

Transilvânia e adjacências


Se havia vampiros em todo o mundo, na Europa Oriental eles saíam pelo ladrão. Na região onde hoje está a Romênia, cada tipo de transgressão moral correspondia a um tipo de sanguessuga diferente. O nosferatu, por exemplo, era uma criança natimorta não batizada que, enterrada, voltava à vida, transformando-se em gato, escaravelho ou até fio de palha. O murony, comum na Valáquia (reino de Vlad Drakul, que inspirou o mais famoso dos vampiros ficcionais), nascia da relação ilegítima de dois filhos ilegítimos. Morto, se metamorfoseava em rã, piolho ou aranha. Um bastardo morto pela mãe depois do parto, e enterrado sem batismo, se transformava em moroiu – uma moita ardente de 2 metros de altura. Os assassinos e os sacrílegos tinham outro destino funesto. Tornavam-se strigoi, seres de aspecto horrendo: altos, corpulentos, olhos vermelhos, unhas iguais a foices e caudas peludas. Ao saírem do túmulo, de dia ou à noite (poucas lendas vampirescas mencionam a aversão ao Sol), levavam a peste aos rebanhos. Os ucranianos, russos e bielo-russos conheciam o mjertovjec, “o morto que anda” – castigo dos ladrões, estelionatários, bruxas e homossexuais. Seus ossos faziam barulho, aterrorizando os vivos. Quando se abria sua tumba, reconhecia-se facilmente a sua natureza, pois estava deitado de bruços. Era desprovido de nariz, e seu lábio inferior era fendido.

A profusão de nomes era tamanha que é impossível contabilizar o número exato de tipos de vampiros. Um site chamado Shroudeater (“comedor de mortalha”, em inglês) listou mais de 700, mas reconhece que a lista está incompleta.

Surtos de vampirismo eram relativamente comuns. O caso mais bem documentado ocorreu na cidade sérvia de Medvegia, em 1732. Tudo começou porque um arquiduque, Arnold Paole, suposto vampiro, matou 15 pessoas. Pelo menos 7 delas viraram sanguessugas. Como se sabia quem era ou não vampiro? Simples. Abrindo o caixão. Lá dentro, o rosto do suspeito vampiro era encontrado bem corado. Seu corpo não apodrecia. Às vezes, seus olhos e membros tinham movimentos. A exumação de túmulos em casos de suspeita de vampirismo se tornou tão comum que o papa Bonifácio 8º, em 1302, promulgou uma lei contra “esse hábito detestável”. Por fim, em 1755, a imperatriz austro-húngara Maria Tereza proibiu a “execução” de cadáveres nos seus domínios (que compreendiam a Transilvânia e outros “picos” muito freqüentados pelos mortos vivos). Isso não impediu que o povo continuasse, por baixo dos panos, apelando para a decapitação e mutilação dos corpos suspeitos.

A invenção de Drácula

Esses fenômenos acabaram rendendo pano pra manga aos escritores. Em 1486, na França, surgia um manual da Inquisição que entre outras coisas detalhava a ação de vampiros: O Martelo das Feiticeiras, dos inquisidores Jacques Sprenger e Henry Institoris. O termo “vampiro” (do sérvio vampir), no entanto, só surgiu em língua ocidental no século 18. Até então, os europeus do oeste não os distinguiam claramente dos fantasmas. Foi o suficiente para que houvesse uma enxurrada de novelas, peças e óperas sobre vampirismo. Byron, Baudelaire e Alexandre Dumas trataram do assunto. O mito moderno, porém, foi sedimentando por Drácula, do inglês Bram Stoker, de 1901. Na história, o vampirólogo Abraham van Helsing explica tudo o que se deve saber sobre vampiros: a nutrição pelo sangue alheio, a metamorfose em rato, morcego ou outro animal, a morte pela estaca ou pela decapitação.



Stoker, contudo, não deixou de fazer as suas inovações. A maior delas, associar o conde à figura histórica real de Vlad 3º, o Empalador (1431-1476), herói nacional romeno. Misto de tirano e brilhante estrategista, ele conteve o avanço otomano no seu principado da Valáquia, ao sul da Romênia atual, com expedientes brutais, como a empalação de inimigos e traidores. Drácula, em romeno, quer dizer “filho do dragão”. Era um título honorífico. Vlad pertencia à Ordem do Dragão, um grupo de cavaleiros empenhados na defesa das fronteiras cristãs contra a ameaça turca. O nome nada tinha de maligno ou diabólico. “É como se um romeno escrevesse uma história em que George Washington bebesse sangue humano”, afirma o escritor romeno Andrei Cedrescu.

O vampiro à luz da ciência

As explicações racionais para o vampirismo começaram a surgir a partir da década de 1730. Mentes iluminadas analisaram as informações médicas dos séculos 14 e 15 para demonstrar que as mortes em série atribuídas a vampiros eram, na verdade, fruto de epidemias. Tratava-se de casos de cólera – daí os rostos rubicundos dos vampiros –, ou da peste. A ausência de decomposição de certos cadáveres exumados justificava-se pela natureza seca do lugar do sepultamento.

Em 1742, um pequeno tratado do médico parisiense Jacques Bénigne Vinslow sugeriu que os indivíduos encontrados nus nos caixões haviam sido, na verdade, enterrados vivos e, em desespero, devoraram as próprias mãos e mortalhas. Na maior parte das vezes, vítimas de catalepsia – estado patológico que provoca imobilidade total e costumava levar a diagnósticos falsos de morte.

Até mesmo a ereção do pênis defunto tinha explicação. O erudito Michael Ranft, no século 18, afirmava: “O pênis, de natureza esponjosa, pode erguer-se espontaneamente se um líquido ou sopro penetrar na artéria hipogástrica”.

Em 1997, o químico Wayne Tikkanen, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, propôs que o vampiro seria um doente acometido de porfiria, doença hereditária que provoca retração dos lábios e malformação dentária, necrose dos dedos e do nariz e escurecimento da pele, que se torna muito sensível aos raios ultravioleta. Tikkanen diz que muitos doentes se escondiam em caixões para se proteger do sol. Já o neurologista espanhol Juan Gómez-Alonso constatou, em 1998, semelhanças entre os vampiros e as pessoas acometidas de raiva: têm insônia e perambulam à noite, são agitadas e sensíveis à água. Algumas apresentam contrações da face, da laringe e da faringe, que provocam a emissão de sons roucos, e até de uma espuma sanguinolenta na comissura dos lábios, pois a saliva não pode mais ser engolida. Essas teorias, deve-se dizer, não são consenso na comunidade científica.

Do ponto de vista sociológico, o vampiro também foi explicado. Em 1997, os estudiosos Gábor Klaniczay e Karin Lambrecht fizeram uma descoberta curiosa: a explosão de casos de vampirismo coincidiu com o fim da caça às bruxas e tomou o seu lugar, numa necessidade do povo de exorcizar seus demônios e de explicar os males que os atingiam.

Nada disso, porém, desfez o fascínio da criatura sanguinária. Como justificá-la? Por que tantas lendas sobre um bebedor de sangue? “O mito do vampiro nasce do nosso medo da morte e do desconhecido. Era preciso criar o horror, aquilo que perturba um sistema ou uma ordem”, diz a psicanalista búlgaro-francesa Julia Kristeva. O psiquiatra e antropólogo carioca Eugênio Flacksman vai além: “A crendice popular é reflexo do psiquismo humano”, afirma. “O vampiro personificava a inveja, o desamparo psicológico. O invejoso suga a nossa vida”.

Eugênio afirma que, simbolicamente, o sangue pode significar vida – é assim na medicina chinesa e no Antigo Testamento, por exemplo. “Por isso não é de todo despropositado o uso de termos como ‘vampiro emocional’, que anda tão em voga hoje em dia”, diz. Servindo de bode expiatório às culpas, temores e desejos ocultos de pacíficos aldeões, o vampiro, num processo de projeção, as encarnou, acalmando a consciência coletiva. Em pleno século 21, foi-nos reservada a descoberta final: na verdade, todos somos vampiros.

Tipos de Vampiros

Camazotz


Onde ocorre: México e Guatemala.

Como é: É o deus-morcego dos maias, com dentes enormes e afiados, asas e garras. Há evidências de que a criatura é inspirada em um enorme morcego hematófago que povoava a região, mas já está extinto.

Strigoi


Onde ocorre: Romênia.

Como é: Este morto vivo mantém mais ou menos a aparência da pessoa original.Só mais ou menos: o defunto desenvolve cauda e pêlos cobrem sua pele. O strigoi anda descalço, nu ou vestindo apenas uma camisola. Sai do túmulo à meia-noite, carregando o caixão nas costas.

Kiang Shi


Onde ocorre: China.

Como é: Tem unhas longas e curvas, cabelo comprido, olhos estáticos e vermelhos e pele esverdeada. Voa e, além de chupar sangue, é dono de um hálito verdadeiramente venenoso. Para detê-lo, basta um monte de arroz: o kiang shi se vê obrigado a contar todos os grãos.

Kappa


Onde ocorre: Japão.

Como é: Trata-se de uma criatura humanóide perversa, pequena e verde. Muitas vezes é parecida com uma criança, mas outras tantas assemelha-se a um sapo ou lagarto. Os kappas atacam animais e sugam seu sangue pelo ânus, além de estuprar mulheres e roubar o fígado das pessoas.

Mjertovjec


Onde ocorre: Rússia, Belarus e Ucrânia.

Como é: Sua aparência é abominável: não possui nariz e tem o lábio inferior fendido. A deformidade, no entanto, não impede que o mjertovjec seja um exímio cavaleiro. Sementes de papoula atraem esse ser, que as seguirá até a sua tumba.


7 razões para virar vampiro



Quem eram os vampiros? Os suspeitos formavam uma multidão. Havia os malfeitores, os perjuros, os enforcados e os feiticeiros. Também os ruivos, os bastardos, os fumantes em dias sagradose os que não comiam alho. Quase ninguém podia bobear. Conheça alguns motivos para virar vampiro:

Pacto com o diabo

Para o homem medieval, quem em vida fizera um pacto expresso com o diabo ressuscitava para atrair os cadáveres de cristãos e de crianças inocentes enterradas perto dele.

O 7º filho do 7º filho

Crença do povo da Transilvânia. Para os italianos, esse rebento escolhido se transformava em lobisomem.

Sexo com a avó

O rapaz que encarasse a parada era candidato a vampiro. Segundo os habitantes da Dalmácia, se transformava em orko, bebedor de sangue de traços monstruosos. Daí se originou a palavra “ogro”.

Nascimento monstruoso

Uma criança nascida deformada era mau agouro. Despertava suspeitas sobretudo sobre o pai, que poderia ser um vampiro, um diabo ou outro espírito maligno.

Casamento com uma bruxa

Mulheres suspeitas de feitiçaria davam má fama até para o marido. Ao morrerem, saíam do túmulo e vampirizavam o cônjuge.

Criança sem batismo

A criança gritava do túmulo, implorando por batismo. Se não fosse atendida, pimba! Renascia como vampiro.

Criança devoradora

No parto, descobria-se que a criança, no ventre, devorara parte da membrana amniótica. A membrana era incinerada e suas cinzas, espalhadas sobre o recém-nascido para livrá-lo do mal.


7 meios de afastar um morto vivo

Despistar no cortejo

No cortejo fúnebre de um suposto vampiro, costumava-se desorientá-lo com um longo trajeto da igreja até o cemitério. Isso, dizia-se, fazia com que ele perdesse o senso de orientação e, conseqüentemente, não encotrasse o caminho para voltar e atazanar os vivos.

Amuletos

Era comum a utilização de amuletos, colocados junto ao vampiro no caixão. Um dos mais conhecidos era o Bilhete de São Lucas, um conjunto de orações para impedir que o defunto suspeito saísse da tumba.

Incenso e alho

Incenso era usado para tampar os olhos, a boca e as narinas do defunto, para ficar imune às tentações de Satanás. O alho era inserido no ânus (os autores antigos, por delicadeza, não entravam em detalhes desse procedimento).

A cruz

O símbolo do cristianismo, é claro, não deixava de ser um instrumento de combate poderoso contra os vampiros. E funcionava que era uma beleza, não importando se havia uma cruz de verdade ou se alguém simplesmente fazia o sinal da cruz com os dedos.

Execuções

Muito comum, incluía a famosa cunha de madeira no coração e uma eventual decapitação. Quase sempre, um carrasco era designado para essas execuções póstumas.

Cozimento em vinho

Serviço para ciganos e estrangeiros. Após a lenta cocção do vampiro desmembrado, ninguém comia a carne. Ela era enterrada de volta.

Vampirização

A lógica é a seguinte: beber o sangue de um vampiro imuniza contra a ação do dito-cujo