sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ABL se pronuncia contra censura à obra de Monteiro Lobato


A Academia Brasileira de Letras (ABL) se posicionou contra o parecer emitido pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que classificou como ‘racista’ a obra Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. O acadêmicos, em plenária realizada na quinta-feira, repudiaram a decisão e disseram que apelarão ao ministro da educação, Fernando Haddad, para que a proibição da obra não entre em vigor.

O parecer foi aprovado por unanimidade pela Câmara de Educação Básica do CNE a partir de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Publicado em 1933, o livro de Monteiro Lobato, um dos maiores nomes da literatura infantil brasileira, narra as aventuras da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo em busca de uma onça-pintada. Segundo o CNE, os traços racistas da obra estariam na forma como o autor se refere à personagem Tia Anastácia, que é negra, e a alguns animais, como o urubu e macaco.

Segundo a nota emitida pela ABL, “cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Um bom leitor sabe que tia Anastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Picapau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica”.

A ABL sugeriu ainda que, ao invés de proibir as crianças de saber disso, “seria muito melhor que os responsáveis pela educação estimulassem uma leitura crítica por parte dos alunos”. De acordo com os acadêmicos, falta conhecimento da obra por parte dos "professores e formuladores de políticas educacionais". “Então saberiam que esses livros são motivo de orgulho para uma cultura. E que muito poucos personagens de livros infantis pelo mundo afora são dotados da irreverência de Emília ou de sua independência de pensamento. Raros autores estimulam tanto os leitores a pensar por conta própria quanto Lobato, inclusive para discordar dele. Dispensá-lo sumariamente é um desperdício".

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

[Referência Literária do Dia] Gogol Bordello

Pintura Retratando o Escritor Nikolai Gogol

Gogol Bordello é uma banda de gypsy punk, formada no ano de 1999 em Nova Iorque. O grupo é muito conhecido por seus shows teatrais e as longas tours após cada albúm. O som da banda incorpora acordeão e violino (e em alguns albuns, saxofone) mixado com punk e dub. O grupo é composto por músicos de várias etnias. Os músicos da banda são da Ucrânia, Rússia, China, Estados Unidos, Israel e Etiópia.


Simulação do rosto do escritor feita por computador (Ps: esse da foto é Eugene Hütz, vocalista da banda Gogol Bordello)

“Gogol” vem do nome de Nikolai Gogol, um dos mais influentes escritores na literatura da Rússia e do Leste Europeu. Ele também serve como influência ideológica pra banda porque ele embutiu cultura ucraniana na sociedade russa, sendo que é o que o Gogol Bordello tem intenção de fazer ao fazer musicas ciganas do leste europeu cantadas na lingua inglesa. “Bordello” em italiano se refere a um bordel.

Saiba mais sobre o escritor Gogol clicando aqui

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Poum de George Orwell


BARCELONA

Morreu Wilebaldo Solano, o último líder do Poum, o Partido Obrero de Unificação Marxista. Foi pelo Poum que lutou o escritor George Orwell em sua temporada catalã, durante a Guerra Civil Espanhola.Fundado em 1935, um ano antes do início do conflito, o partido estava baseado na Catalunha e tinha inclinação trotskista, o que o levaria a ser reprimido pelo stalinismo.


A visão do partido era que não bastava lutar contra o general Franco; a guerra pela implantação do comunismo deveria ser simultânea. A vitória do franquismo fez com que seus dirigentes fossem perseguidos. Ferido na guerra, Orwell saiu fugido da Espanha. Na década seguinte, escreveria “1984”, livro fortemente influenciado por sua experiência na Catalunha.


Retirei daqui

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O mundo de Ernest Hemingway


Momentos marcantes do século 20 foram cenário para vida e obra do escritor


1. Infância

Anos: 1899-1917

Fase do escritor: Nasce em Oak Park, Illinois. Aos 18 anos, começa a trabalhar no jornal The Kansas City Star. Logo depois, participa como voluntário na Primeira Guerra. Suas primeiras criações literárias aparecem após Hemingway se juntar a outros escritores autoexilados em Paris na década de 20. O grupo, que inclui Scott Fitzgerald e Ezra Pound, fica conhecido como a "geração perdida".

2. O Sol Também se Levanta

Ano de publicação: 1926

Personagem do livro: Jake Barnes, um jornalista americano que vive em Paris e busca um ideal de vitalidade nas touradas da Espanha. É o primeiro personagem autobiográfico do escritor.

Momento histórico: Os eufóricos anos 20, época em que o mundo fervilhava ao som de jazz, com jovens exilados desfrutando uma súbita riqueza e em busca de valores que pareciam perdidos em seu país de origem.

3. Adeus às Armas

Ano de publicação: 1929

Personagem do livro: A exemplo de Hemingway, seu protagonista, Frederic Hendry, se alista como motorista de ambulância da Cruz Vermelha durante a Primeira Guerra. Ferido em combate na Itália, tem um caso com uma enfermeira em Milão - amor correspondido no livro, mas não na vida real.

Momento histórico: A Primeira Guerra (1914-1918), relatada de maneira seca, concisa e realista.

4. As Verdes Colinas da África

Ano de publicação: 1935

Personagem do livro: O próprio Hemingway, em sua primeira obra de não-ficção.

Momento histórico: Enquanto o mundo assiste ao fortalecimento acelerado do fascismo e do nazismo, prenúncios da Segunda Guerra, o escritor caça animais selvagens nos safáris africanos.

5. Por Quem os Sinos Dobram

Ano de publicação: 1940

Personagem do livro: Robert John, um dinamitador americano que luta ao lado dos republicanos contra as tropas do general Franco, questiona-se quanto à validade da sua dedicação à guerra.

Momento histórico: A Guerra Civil Espanhola (1936-1939), uma das mais sangrentas do século 20. O próprio Hemingway participou do conflito como voluntário das brigadas internacionais, de esquerda.

6. O Velho e o Mar

Ano de publicação: 1952

Personagem do livro: Santiago, um velho pescador que enfrenta um marlim gigantesco, é um dos raros personagens não inspirados no próprio autor - que, um ano depois, receberia o Prêmio Nobel de Literatura.

Momento histórico: A bucólica Cuba retratada no livro tem o socialismo implantado em 1959. O escritor, que naquele momento ainda vive na ilha, apoia o golpe e fica amigo de Fidel Castro.

7. Morte

Ano: 1961

Fase do escritor: Após a saúde começar a cobrar o preço por décadas de aventuras e excessos, o já lendário romancista enfrenta crises de depressão e internações em clínicas de reabilitação. Em 2 de julho, ao constatar uma gradativa perda de memória e temendo a impossibilidade de escrever, suicida-se com um tiro de espingarda em uma cabana em Ketcham, Idaho.

Vi aqui

segunda-feira, 19 de julho de 2010

[Curiosidades Literárias] Academia francesa de letras inspirou a brasileira


A Academia Brasileira de Letras (ABL) nasceu inspirada na Academia Francesa, fundada em 1634, pelo Cardeal Richelieu, para estabelecer e manter os padrões literários franceses. A semelhança entre elas não estava apenas nos objetivos. No início, a ABL tinha trinta membros mas, para ficar mais parecida com a francesa, que tinha quarenta, foram eleitos mais dez, número mantido até hoje. Mesmo o fardão, usado pelos imortais, como são chamados os seus membros, é bastante semelhante ao francês. A principal diferença entre as duas é que a francesa aceita escritores de todos os países que falam francês e a ABL, apenas brasileiros.
A ABL foi fundada em novembro de 1896, no Rio de Janeiro. O escritor Machado de Assis (1839-1908), seu primeiro presidente, liderou o movimento pela sua fundação. Até meados dos anos 70, o regimento era machista: somente autores masculinos eram aceitos. Apenas em 1976 foi aprovada a eleição também de escritoras. A primeira eleita foi Rachel de Queiroz. A palavra “academia” é uma referência ao semideus Academus. Platão ensinava Filosofia, em Atenas, em um jardim de oliveiras consagrado a essa divindade.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

[Clássicos da Literatura] Laranja Mecânica


Diagnosticado com um tumor cerebral, Anthony Burgess desandou a escrever. Pariu seis livros em um ano para garantir o sustento da viúva. Saiu tudo ao contrário. O tumor não existia – era um diagnóstico malfeito. E dinheiro, que é bom, o inglês só veria uma década depois, em 1971, quando um dos livros foi levado ao cinema por Stanley Kubrick. Era Laranja Mecânica. Numa das adaptações mais fiéis do cinema, Kubrick retratou uma Inglaterra futurista, onde prisões pretendem usar violência para recuperar criminosos. A cobaia é o delinqüente Alex, que agrediu e estuprou um casal para se divertir. O cinema touxe à tona esse clássico que passara quase despercebido. Pelo menos Burgess sobreviveu ao falso tumor – e pôde desfrutar a consagração como um dos ícones da ficção científica moderna.

• Violência exagerada? Burgess diz que não. Parte da inspiração para a trama saiu de um espancamento que sua mulher (grávida) sofreu nas ruas de Londres.

• Nadsat é o nome do idioma que Burgess criou para escrever Laranja Mecânica. Misturando inglês e russo, o nadsat sai da boca de Alex como gírias saem da boca de um adolescente. O livro vem com um glossário no final, que não existia na primeira edição em inglês. Burgess preferia o estranhamento do leitor desentendido.

• James Joyce, de quem Burgess era fã declarado, tem influência marcante. As palavras em nadsat muitas vezes lembram a escrita do irlandês, autor de Finnegans Wake.

• A primeira edição lançada nos Estados Unidos não tinha o último capítulo do livro – os editores não gostaram do final original. E foi numa edição incompleta que Kubrick baseou seu filme.

Retirei Daqui

terça-feira, 22 de junho de 2010

[Especial Filosofia] O Contratualismo

O Contratualismo é uma corrente filosófica que parte da premissa que, nos primórdios da humanidade, o ser humano vivia em um Estado de Natureza, onde não havia Estado, Instituições ou Leis e onde a liberdade era plena, não existindo limites para a conduta humana. Acontece que, em um determinado momento da nossa história, os homens decidiram criar o chamado Estado Civil, onde existem Estado, Instituições e Leis e a liberdade de agir não é plena. Em suma, uma sociedade organizada

O mecanismo que possibilitou esta transição entre o Estado de Natureza e o Estado Civil é chamado de Contrato Social.

O Contratualismo de Hobbes.


Para Hobbes, O Estado de Natureza era um completo caos, pois o Homem é egoísta por natureza e, assim, não existindo limites para a suas condutas, eles faziam qualquer coisa para conseguir o que desejavam. Tal pensamento pode ser sintetizado pela sua famosa frase: "O homem é o lobo do homem."

Portanto, o que levou os Homens a assinarem o Contrato Social foi o medo que os Homens sentiam dos outros Homens. O Estado Civil veio para dar uma maior segurança para a vida humana. Assim, o Estado surge para controlar, minimizar o caos. Ainda segundo Hobbes, para que o Estado fosse eficiente no controle da violência, ele precisava ser todo poderoso. Deste modo, era necessário que todos os Homens abrissem mão de uma parte de seus direitos e os entregassem para o Estado (Administradores do Estado). Assim, todo o poder da Sociedade era transferido para os Administradores do Estado, para que eles pudessem conter a violência natural do ser humano.

Ainda segundo Hobbes, o Contrato Social assinado entre os Homens e os Administradores do Estado não poderia, de modo nenhum, ser quebrado. Era, portanto, irrevogável. Mesmo que o Estado descumprisse o seu dever estipulado pelo pacto (Manter a ordem social), a sociedade não poderia quebrá-lo.

Assim, o que o Soberano do Estado impõe é sempre justo. Justo é que haja leis. Injustiça é que não hajam leis. Toda lei que emana do soberano é justa, pois foi baseada no Contrato Social.

O Contratualismo de Locke


Para Locke, o homem não era mal por natureza. Ele era, na verdade, uma Folha em Branco. Assim, o homem poderia ser bom e mal ao mesmo tempo. Para ele, o homem criou o Estado Civil porque percebeu que juntos seriam melhores, poderiam potencializar os seus Direitos Naturais (Liberdade, Propriedade Privada, Vida etc).

Segundo Locke, as cláusulas do Contrato Social não eram as mesmas para o Estado e Súditos. O Estado tinha o dever de proteger, criar, e manter os Direitos Naturais dos Homens. Os Súditos, por sua vez, deveriam obedecer as leis.

Portanto, se o indivíduo quebrasse uma das cláusulas do Contrato Social, ele deveria ser punido. Já se o Estado quebrasse uma das cláusulas do pacto, surgia para a sociedade o Direito de reagir ao Estado.

Havia, portanto, um Direito Natural de se opor ao Estado.

O Contratualismo de Rousseau


Para Rousseau, o Homem nascia livre e bom, a sociedade é que o corrompia. Suas ideias podem ser sintetizadas com a belíssima frase inicial de sua principal obra, O Contrato Social,: "“O homem nasceu livre, e por toda a parte geme agrilhoado; o que julga ser senhor dos demais é, de todos, o maior escravo".

Para ele, no Estado de Natureza, já existiam Direitos Naturais e eles eram plenamente usufruídos. O Estado Civil surgiu para regulamentar os Direitos Naturais, para melhorá-los e protegê-los. O Estado Civil, desse modo, serve apenas para para regulamentar e proteger os Direitos Naturais já existentes.

Nesse caso, se o Estado não cumpre o seu dever de regulamentar e proteger os Direitos Naturais do Homem, o cidadão tem o dever de reagir.

Havia, portanto, o dever de reagir ao Estado, quando esse passa a descumprir o seu dever para com o Contrato Social.

Consequências do Contratualismo

O Contratualismo influenciou diretamente as Revoluções Liberais (Francesa e Americana). As Revoluções Liberais, por sua vez, foram o embrião do Estado Moderno de Direito. Em suma, as discussões iniciadas com o Contratualismo fizeram surgir a sociedade atual.

domingo, 20 de junho de 2010

[Curiosidades Literárias] Síndrome de Stendhal


Síndrome de Stendhal é uma doença psicossomática bastante rara, caracterizada por aceleração do ritmo cardíaco, vertigens, falta de ar e mesmo alucinações, decorrentes do excesso de exposição do indivíduo a obras de arte, sobretudo em espaços fechados.

O nome da síndrome se deve ao escritor francês Stendhal (pseudônimo de Marie-Henri Beyle) que, tendo sido acometido dessa perturbação em 1817, fez a primeira descrição detalhada dos seus sintomas, posteriormente publicada no livro Nápoles e Florença: uma viagem de Milão a Reggio. Após observar por muito tempo alguns afrescos, descreveu sua experiência como: "Absorto na contemplação de tão sublime beleza, atingi o ponto no qual me deparei com sensações celestiais. Tive palpitações, minha vida parecia estar sendo drenada...".

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre aos 87 anos o escritor português José Saramago


A morte de Saramago foi confirmada à imprensa portuguesa pelo seu editor, Zeferino Coelho. "Aconteceu há pouco", disse em entrevista à emissora de televisão RTP. "Estava doente há algum tempo, às vezes melhor outras vezes pior.
Fontes da família confirmaram a agências internacionais que Saramago estava em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde morava há vários anos.
A morte ocorreu por volta das 13h no horário local (8h de Brasília), quando o escritor estava em casa acompanhado da mulher e tradutora, Pilar del Río, informa a agência Efe.
José Saramago havia passado uma noite tranquila. Após ter feito o desjejum de costume e conversado com a mulher, começou a sentir-se mal e pouco depois morreu.
Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, Saramago nasceu em Azinhaga em novembro de 1922. Autodidata, publicou seu primeiro trabalho, "Terra do Pecado", em 1947.
Seu trabalho seguinte, "Os Poemas Possíveis", seria lançado 19 anos mais tarde e pelos anos seguintes ele se dedicaria principalmente à poesia e ao jornalismo.
Saramago volta à prosa no final da década de 1970. Seu estilo característico começa a ser definido em "Levantado do Chão" (1980) e em "Memorial do Convento" (1982).
Em 1991, Saramago lança sua obra mais polêmica, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo".
Considerada blasfema, a obra foi excluída de uma lista de romances portugueses candidatos a um prêmio literário pelo Subsecretário de Estado adjunto da Cultura de Portugal, Sousa Lara, sob a alegação de que não representava o país.
Seu último romance editado foi "Caim", publicado em 2009.

terça-feira, 15 de junho de 2010

[Curiosidades Literárias] D’Artagnan e os Três Mosqueteiros

Na ficção, ele foi único, símbolo da elegância e do poder dos que defendiam o absolutismo francês no século 17. Na realidade, foram dois os homens que inspiraram as aventuras do mais famoso dos mosqueteiros de sua majestade

Charles Batz de Castelmore era um mosqueteiro. Nasceu em 1611 e morreu em combate na batalha de Maastricht, em 1673, depois de uma vida a serviço do rei de França. Além da fama de excelente espadachim e de uma brilhante carreira militar, ele deixou outro legado. Um livro de memórias publicado em 1700 por um escritor cuja importância foi apagada pelo tempo, mas que se tornou um documento para entender a centralização do poder na França no século 17, e que deu origem a um dos personagens mais conhecidos no mundo da ficção. O sobrenome Batz de Castelmore foi esquecido, mas o nome que Charles herdou da família da mãe foi alçado à condição de mito por outro escritor, este um dos mais populares da história da literatura: Batz de Castelmore tornou-se o conde D’Artagnan.
No romance Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, D’Artagnan, um nobre empobrecido, chega a Paris, montado num cavalo amarelo, em busca de aventuras e fortuna. Lá, conhece Aramis, Porthos e Athos, mosqueteiros do rei Luís XIII, que o admitem no grupo. Os quatro envolvem-se na luta cotidiana contra os homens do cardeal Richelieu – o poderoso primeiro-ministro da França. O país vivia um clima de guerra civil e D’Artagnan se mete nas intrigas palacianas, luta pela honra da rainha, vence e cobre-se de glórias.
A história ultra-romântica de Dumas, escrita em 1843, 200 anos depois dos fatos relatados, portanto, eram para parecer verdadeiras. Mas, jamais, para serem tomadas como uma narrativa fiel de fatos históricos. Seu propósito era aquele próprio do folhetim: divertir. Por isso, muita gente pode surpreender-se ao saber que D’Artagnan existiu. Não como o herói romântico, mas como um guerreiro leal e dedicado ao trono francês. O livro foi fiel às memórias de D’Artagnan, só que elas eram inventadas. O autor, Gatien de Courtilz de Sandraz, pode até tê-lo conhecido, mas certamente não colheu o depoimento do mosqueteiro (o livro foi publicado em 1700, 27 anos depois da morte do suposto narrador).
Sobre o verdadeiro D’Artagnan sabe-se que foi realmente um mosqueteiro do rei, nome dado aos componentes da guarda de elite criada para proteger o rei Luís XIII, em 1622. Era um pequeno exército formado por cerca de 200 homens armados com o que havia de mais moderno na época. Para ser aceito na turma, além de ser um excelente soldado, capaz de combater a pé, a cavalo ou na infantaria, o sujeito precisava jurar fidelidade ao rei e estar disposto a morrer em seu nome. O que não era lá muito difícil na atribulada Paris daqueles dias. A criação da Companhia dos Mosqueteiros do Rei fazia parte da complexa política de Estado e, sobretudo, das perigosas relações entre a nobreza. Quando Luís XIII tornou-se rei, em 1614, a Europa passava por um período turbulento, conhecido como Reforma Religiosa. Protestantes e católicos brigavam pelas almas dos fiéis e pelo controle de reinos, entre eles o francês. Por isso, Luís XIII esforçava-se para conter a sede de poder dos nobres num país dividido pela fé. Mantendo o governo e a economia com rédeas firmes e ajudado pelo primeiro-ministro e líder católico, o cardeal Richelieu, Luís XIII transformou a França numa potência militar e econômica.
Os mosqueteiros eram uma das peças mais importantes do jogo de interesses da corte francesa naquela época. Recrutados entre os mais corajosos cavaleiros da pequena nobreza do país, formavam uma milícia particular do monarca, tornando-se um símbolo importante do seu poder absoluto. “Os mosqueteiros eram a companhia favorita do rei, que gostava de treiná-los pessoalmente em jogos de tiro e em caçadas”, diz o historiador francês Claude Dufresne, especialista na obra de Dumas. “Como a guarda era uma prerrogativa do rei, era natural que existisse uma hostilidade entre a nobreza e os mosqueteiros.”
Nessa época, o próprio Richelieu criou para si uma pequena tropa de elite. Não demorou muito para que as duas facções se estranhassem. No romance de Dumas, essa rivalidade é explorada ao máximo. D’Artagnan e seus amigos volta e meia topavam com os homens do cardeal e começavam uma briga. Como a popularidade do rei era cada vez maior que a de Richelieu, os fiéis defensores do cardeal são os vilões do livro. “Contudo, na realidade, as duas companhias de mosqueteiros serviram ao mesmo propósito – proteger os poderes do rei e de seu governo e muitas vezes agiram juntas”, afrima o pesquisador francês Théophile Monier, autor do verbete sobre os mosqueteiros no clássico L’Art de la Guerre.
O certo é que o verdadeiro D’Artagnan jamais duelou com os homens de Richelieu. Charles Batz, nascido em 1611, teria entrado para a companhia dos mosqueteiros apenas em 1644 e, portanto, não serviu a Luís XIII, como está no romance, mas a Luís XIV, que, depois da morte do antecessor e de Richelieu, uniu seus homens aos do cardeal – sinal de que as rivalidades entre eles não deviam ser tão radicais como no livro. Mas ele, de fato, se tornou homem de confiança do rei: em 1658, comandou o cerco aos revoltosos de Dunquerque, no norte da França. Em 1659, liderou a tropa que protegeu o comboio real durante o casamento de Luís XIV com a infanta da Espanha, Maria Teresa. Em 1661, com a morte do cardeal Mazarin (que, de certa forma, foi o Richelieu de Luís XIV), ficou ainda mais próximo do trono, até assumir, em 1667, o posto de capitão-tenente. Na guerra contra a Holanda, em 1673, D’Artagnan caiu em combate, à frente de suas tropas, durante o cerco a Maastricht.
Mas o mais surpreendente sobre a história do real D’Artagnan é que Charles de Batz não teria sido o único a inspirar Alexandre Dumas. “Ele misturou a vida de Charles Batz com a de outro D’Artagnan, Pierre de Montesquiou, que viveu entre 1645 e 1725, foi marechal do Exército francês e primo de Charles”, diz Dufresne. O segundo D’Artagnan também foi mosqueteiro e tomou parte nas mais importantes batalhas de seu tempo. E não foram poucas, já que Luís XIV não foi um rei famoso por sua diplomacia com os vizinhos. Pierre foi governador de Arras, que, na complexa geografia da França do século 17, manteve-se fiel à Coroa espanhola até 1640 e que veio a demonstrar com fervor sua adesão à França no século 18, sob o reinado de Luís XV. Um dado curioso é que suas tropas, em Arras, passaram a utilizar fuzis, e não mosquetes, num regimento que passou a ser chamado de D’Artagnan, em homenagem a ele.
Na história da França, os mosqueteiros foram extintos por Luís XVI em 1775, por razões financeiras. Uma péssima jogada. Pouco mais de 15 anos depois, durante a revolução de 1789, uma turba de franceses furiosos levaria a família real para a guilhotina. As tropas de elite que protegiam os reis da França fizeram falta, o que custou as cabeças coroadas de Luís XVI e sua mulher, Maria Antonieta.

Três mosqueteiros


As Memórias de D’Artagnan, que serviram de base para Dumas, contam histórias que são, em geral, sem fundamento real, mas nas quais aparecem personagens que existiram.
É o caso do mosqueteiro Isaac de Portau (que pode ter virado Porthos, na obra de Dumas), do ex-abade Henry D’Aramis (para Dumas, Aramis é mosqueteiro, mas seu desejo é se tornar religioso) e do nobre Sillègue Athos.
Para além do livro, pouco se sabe dessa turma. D’Aramis, por exemplo, casou-se em 1650 com uma mulher chamada Jeanne de Bonasse, cuja família foi, por longo período, dona de um castelo. Não há traços de sua vida de mosqueteiro e até o ano de sua morte é ignorado.
De Portau, quase não se tem notícias e, de Athos, sabe-se apenas que foi morto em 1643, vitimado por um golpe de espada. Mas há mais um mosqueteiro nessa história: o próprio Dumas. “Sob os quatro personagens, escondem-se características com as quais ele, filho de um general, gostava de ver em si”, diz Claude Dufresne.

domingo, 16 de maio de 2010

[Referência Literária do Dia] Killing An Arab - The Cure


Pouca gente sabe, mas essa música, da banda de Post-Punk Inglesa The Cure, foi claramente inspirada no livro O Estrangeiro (Albert Camus). Aqui vai a parte que dá para perceber claramente isso:

I'm alive (Eu estou vivo)
I'm dead (Eu estou morto)
I'm the stranger (Eu sou um estranho)
Killing an arab (Matando um árabe)

I can turn and walk away (Eu posso voltar atrás)
Or I can fire the gun (Ou eu posso abrir fogo com a arma)
Staring at the sky (Olhando fixamente para o céu)
Staring at the sun (Olhando fixamente para o sol)
Whichever I choose (Qualquer escolha que eu faça)
It amounts to the same (Tem a mesma importância)

Absolutely nothing (Absolutamente nenhuma)

Quem leu o livro, certamente se lembrará da parte da praia, onde Mersault mata o árabe.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

[Curiosidades Literárias] Por que Shakespeare é considerado um gênio?


Porque sua obra alterou o rumo da literatura mundial. Harold Bloom, famoso crítico americano e autor do livro Shakespeare: A Invenção do Humano, diz que o dramaturgo inglês entendia a alma humana como nenhum outro autor jamais entendeu.

A razão para isso podem ter sido as circunstâncias em que escreveu sua obra. No século 16, Shakespeare era muito popular e encenava suas peças para todo tipo de pessoas. Nobres, letrados, prostitutas, gatunos e artesãos lotavam os teatros em busca de diversão. Entreter esse público, nada ordeiro ou silencioso, não era tarefa fácil e o jeito que Shakespeare encontrou foi representar no palco personagens com quem todos ali pudessem se identificar. “Os grandes gênios são espelhos nos quais os leitores acabam encontrando a si próprios”, escreveu Bloom.

Shakespeare escreveu os maiores clássicos do teatro e criou uma galeria de personagens que fascinam a humanidade mesmo séculos após sua morte. “Todos os produtos culturais feitos depois de Shakespeare recorrem a tipos imaginados por ele”, diz Peter James Harris, professor de Literatura Inglesa da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

Como Bloom e Harris, a maior parte dos críticos literários da atualidade concordam que continuamos vivendo sob o impacto das obras do bardo inglês. Chamá-lo de gênio, portanto, é fazer-lhe justiça.

Tipos inesquecíveis Quem são os personagens eternizados na obra de William Shakespeare

A peça: Romeu e Julieta



Trama: Filhos de famílias inimigas, Romeu e Julieta se apaixonam, mas são proibidos de viver o amor. Para não ter de casar com outro, Julieta decide seguir um plano que pode mudar sua sorte: ela fingiria o suicídio tomando um líquido que altera os sentidos. Romeu seria avisado e resgataria a jovem do túmulo. Os planos dão errado e os dois jovens escolhem a morte a viver separados de seu amor.

A peça: Otelo


Trama: O mouro Otelo torna-se general e tem Iago como uma espécie de escudeiro. A lealdade dele, no entanto, dura até o dia em que é preterido numa promoção. A missão de Iago passa então a ser a derrocada do chefe. Fazendo-se de amigo conselheiro ele induz Otelo a pensar que sua esposa, Desdêmona, o trai. Otelo acaba consumido pelo ciúme doentio e joga por terra tudo que conquistara com honra e determinação implacáveis.

A peça: Rei Lear


Trama: Rei Lear vivia muito bem até que pede a suas filhas que lhe façam declarações de amor para provar que merecem a herança. As duas mais velhas são hábeis em recitar belas palavras. Cordélia, a caçula, não sabe como expressar seu sincero apreço pelo soberano e é deserdada. As outras irmãs, que agora dividem o reino, passam a desrespeitar o pai. Sem a coroa, rei Lear percebe o quanto a majestade pode ser transitória

A peça: Hamlet


Trama: O príncipe da Dinamarca vive feliz, bajulado pelos amigos e pelas damas da corte. Quando recebe a visita do fantasma de seu pai, morto poucos dias antes, descobre que o tio – agora casado com sua mãe e dono do trono – é o assassino. A traição o deixa atormentado e Hamlet passa a questionar o valor da vida.

A peça: Macbeth


Trama: Macbeth está prestes a receber uma promoção quando três bruxas aparecem e lhe despertam o desejo da traição. Elas garantem que Macbeth pode se tornar rei. A notícia alegra a esposa do nobre, que decide armar para que a profecia se cumpra. Ela induz o marido a assassinar o rei e assumir o trono. Mas os rastros de sangue agitam o reino, produzem inimigos para o novo soberano e, por fim, o conduzem à sua ruína .

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sábado, 1 de maio de 2010

[Curiosidades Literárias] Como nasce uma língua?



Em primeiro lugar, é preciso compreender o que é um idioma. “É o conjunto organizado de signos lingüísticos, com características fonéticas e vocabulares próprias. Além disso, ele deve ter um número razoável de falantes que o utilizem em textos de larga circulação. Do contrário, é só um dialeto”, explica Jarbas Vargas Nascimento, professor de latim da PUC de São Paulo. Geralmente, uma nova língua nasce de outra já existente, num processo que pode durar séculos. O português e o francês, por exemplo, surgiram do latim. Mas também é possível que não haja uma só raiz. É o caso das chamadas línguas germânicas, como o alemão e o dinamarquês. “Elas podem ter se originado de forma independente, pois essas tribos nem sequer se conheciam”, afirma Goez Kaufmann, especialista em dialetologia e professor convidado da Universidade de São Paulo.

“No caso das línguas neolatinas sabe-se que todas têm uma origem comum porque na época do Império Romano todos falavam o latim vulgar e quase ninguém estudava normas gramaticais”, diz José Rodrigues Seabra, professor de língua e literatura latina da USP. Com o fim do domínio dos césares, os vários povos passaram a falar dialetos diferentes, que se transformaram em idiomas próprios.

Hoje o inglês é dominante, mas os especialistas acham difícil ocorrer um processo semelhante de fragmentação porque não só o idioma é bem estruturado como milhões de pessoas conhecem as regras gramaticais. “Ainda assim, o inglês falado na Índia é cada vez mais diferente do usado em outras partes do mundo e pode ser que no futuro ele seja considerado outra língua”, diz Kaufmann.

Chinês

Origem - Pré-história, a partir de dialetos como o cantonês, o de Xangai e o de Pequim.

Curiosidade - Só em 1949, com o governo comunista, surgiu uma língua oficial, derivada da fala de Pequim. A escrita, ideográfica (refere-se a significados e não a fonemas), unificou culturalmente o país.

Grego

Origem - Nasceu de vários dialetos da península Balcânica no século 8 a.C.

Curiosidade - Foi a primeira língua internacional e com ele nasceram a filosofia e a cultura do Ocidente. Outros idiomas o utilizam em nomes científicos e em palavras como “fósforo” e “estética”.

Japonês

Origem - Por volta do século 3, ao leste e ao sul do arquipélago japonês.

Curiosidade - Tem 3 sistemas de escrita: o hiragana, o katakana e o kanji (os ideogramas chineses). Por isso, um japonês que não fala uma palavra em chinês pode ler muita coisa nesta língua.

Árabe

Origem - Península Arábica, primeiros registros escritos datam do século 5.
Curiosidade - Desenvolveu um alfabeto próprio, que depois foi adotado pelo persa (Irã) e o pashtu (Afeganistão). A língua responsável pelo desenvolvimento da civilização islâmica é falada em 22 países.
Latim

Origem - Por volta do século 7 a.C. na região do Lácio, onde Roma foi fundada.

Curiosidade - Expandiu-se junto com o Império Romano e acabou dando origem a cerca de 10 línguas. Ainda hoje é o idioma oficial no Vaticano. Palavras latinas estão em todas as línguas modernas.

Daqui

sábado, 24 de abril de 2010

[Curiosidades Literárias] Qual foi o primeiro livro impresso no mundo?


Uma Bíblia de 641 páginas foi o primeiro livro impresso pelo alemão Johan Gutemberg. Ele inventou a técnica da impressão provavelmente em 1453, mas só completou seu primeiro livro em 1455. Para imprimir cada página Gutemberg precisou forjar letras em chumbo e depois arranjá-las uma a uma, manualmente, para formar painéis com palavras compondo linhas. Para piorar seu trabalho, o estilo de escrita da época era a gótica, com letras cheias de volteios. Uma vez impressa uma página, era preciso deixá-la secar para depois imprimir no verso. Foram feitos cerca de 300 exemplares, mas nem todos eram iguais – alguns tinham as letras iniciais de cada capítulo caprichosamente pintadas à mão. Gutemberg, filho de um alto funcionário da Casa da Moeda da região da Mogúncia (Alemanha), teve a idéia de criar a imprensa ao ver moedas serem cunhadas. A invenção é considerada uma das mais importantes da história da humanidade pelas profundas mudanças que provocou na difusão do conhecimento no mundo inteiro.



• A Bíblia também é o livro mais vendido. Somente de 1815 a 1998 foram comercializados 3,88 bilhões de exemplares no mundo inteiro.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Capítulo inédito de Mark Twain será leiloado nos EUA

Um capítulo inédito da autobiografia de Mark Twain será leiloado em junho em Nova York, anunciou a casa Sotheby's nesta quarta-feira, centenário da morte do escritor.
Com o título "Rascunho de Família" ("A Family Sketch"), o texto de 65 páginas é dedicado a sua filha predileta, Suzy, que morreu aos 24 anos de meningite, e é estimado entre US$ 120 mil e US$ 160 mil.
Uma coleção de cartas manuscritas, textos e fotos do autor de "As Aventuras de Huckleberry Finn" e de "Tom Sawyer" --duzentos lotes, de um valor total próximo de um milhão de dólares-- serão leiloados em 17 de junho.
Mark Twain (1835-1910), cujo verdadeiro nome era Samuel Langhorne Clemens, deixou uma grande quantidade de manuscritos.
Sua "Autobiografia de Mark Twain" foi publicada parcialmente como obra póstuma em 1924 e depois por outras duas editoras, mas os especialistas consideram que não existe uma versão definitiva.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

[Curiosidades Literárias] Qual foi a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras?


A primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras - ABL foi a escritora cearense Rachel de Queiroz. Sua eleição, ocorrida em 04 de novembro de 1977, foi muito comemorada pelas feministas brasileiras(o movimento, à época, estava em seu auge). Pouco tempo depois, no entanto, a escritora deu a seguinte declaração em uma entrevista: "Eu não entrei para a Academia por ser mulher. Entrei, porque, independentemente disso, tenho uma obra. Tenho amigos queridos aqui dentro. Quase todos os meus amigos são homens, eu não confio muito nas mulheres!". Um verdadeiro soco no estômago do movimento feminista.

domingo, 11 de abril de 2010

[Clássicos da Literatura] Madame Bovary


Capitu traiu? Capitu não traiu? Esqueça, ao menos por ora, o dilema proposto por Machado de Assis em Dom Casmurro. Emma, protagonista do romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert (1821-1888), traiu. E gostou. Seu adultério chocou a França a ponto de o romance ser oficialmente censurado. Ninguém podia tolerar a denúncia do vazio da vida burguesa empreendida pelo autor.

Publicado em 1857, Madame Bovary causou dois escândalos. O primeiro e mais óbvio dizia respeito ao enredo do livro. A história sobre a segunda esposa do jovem e pacato médico Charles Bovary, que, de tanto ler novelas românticas, começa a deplorar a vida morna que leva com o marido e é arrastada para o adultério, bagunçou o coreto da literatura de bons modos. Poucas vezes, até então, a realidade aparecera de forma mais concreta e palpável.

O segundo escândalo era literário. O livro ajudou a inaugurar o Realismo, movimento artístico que pretendia reproduzir com exatidão o meio social vigente. Mais do que apenas integrar as fileiras duvidosas de uma patota literária, o estilo preciso e perfeito de Madame Bovary vem influenciando sucessivas gerações de romancistas, do checo Franz Kafka ao peruano Mario Vargas Llosa, que, um dia, escreveu assim sobre a personagem adúltera da obra: “Ela violenta os códigos do meio estimulada por problemas seus, não em nome da humanidade, de certa ética ou ideologia”.

Vi aqui

domingo, 4 de abril de 2010

Keith Richards diz em autobiografia que sonha em ser bibliotecário


O guitarrista Keith Richards, do Rolling Stones, tem o sonho secreto de ser bibliotecário, diz o próprio em uma autobiografia que está perto de ser publicada.
Segundo a edição de hoje do jornal inglês "The Sunday Times", o músico confessa no livro que, apesar de sua imagem de roqueiro, há anos cultiva uma paixão pelos livros e inclusive recebeu formação profissional para organizar os guardados em suas casas na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Em sua biografia, pela qual teria recebido US$ 7,3 milhões por antecipação, Richards explica que tentou aplicar um sistema que utilizam os bibliotecários para ordenar seus livros, entre eles muitos sobre a história do rock e a Segunda Guerra Mundial.
Além disso, Richards atuou como uma "biblioteca pública" ao emprestar exemplares de autores britânicos como Bernard Cornwell e Len Deighton para seus amigos, diz o jornal.
Segundo o "The Sunday Times", durante sua juventude na austera Inglaterra do pós-guerra, o roqueiro se refugiava na leitura antes de encontrar o blues.
Para Richards, "quando você cresce, há duas instituições que o afetam especialmente: a Igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca, que pertence a você. A biblioteca pública é enormemente igualitária".

domingo, 28 de março de 2010

[Referência Literária do dia] Renato Russo


Essa referência é bem difícil. Nesta semana o cantor Renato Russo faria 50 anos (ontem, mais precisamente). Pouca gente sabe, mas o vocalista da banda Legião Urbana se chamava Renato Manfredini. Mas então, de onde veio o “Russo” do seu nome artístico? Adivinhe só: segundo o artista, foi uma homenagem a Bertrand Russell.



E quem era Bertrand Russel? É o que leitor deve estar se perguntando agora. Pois bem, ele foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Político liberal, activista e um popularizador da filosofia. Inúmeras pessoas respeitaram Russell como uma espécie de profeta da vida racional e da criatividade. A sua postura em vários temas foi controversa.

Russell nasceu em 1872, no auge do poderio económico e político do Reino Unido, tendo morrido em 1970, vítima de uma gripe, quando o império se tinha desmoronado e o seu poder drenado em duas guerras vitoriosas mas debilitantes. Até à sua morte, a sua voz deteve sempre autoridade moral, uma vez que ele foi um crítico influente das armas nucleares e da guerra estadunidense no Vietnã. Era inquieto.

Recebeu o Nobel de Literatura de 1950, "em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento".

sábado, 27 de março de 2010

As 7 poesias mais conhecidas da literatura brasileira

Aqui vai uma lista dos poemas brasileiros (vou logo avisando: Fernando Pessoa é PORTUGUÊS!) que considero os mais conhecidos da história. Com certeza, o amigo leitor, já se deparou alguma vez na vida, em casa, no trabalho ou até mesmo na rua, entre um rebolation e outro, com alguma passagem de um dos poemas abaixo:


7 º - Versos Íntimos - Augusto dos Anjos



Esse poema (meu favorito) do escritor paraibano Augusto dos Anjos, o pai do movimento simbolista no Brasil, não é exatamente o mais conhecido da história, mas é um dos preferidos dos professores de literatura Brasil a fora. Possivelmente o leitor já deve ter se deparado com ele em algum livro, apostila ou prova.

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!

Augusto dos Anjos

6° - Navio Negreiro - Castro Alves


Um dos poemas mais conhecidos e belos da literatura brasileira e mundial. No poema, o escritor baiano dar voz aos sem vozes, descrevendo como era o transporte dos negros durante o período da escravidão. O poema como um todo não é lá muito conhecido, uma vez que ele é imenso, entretanto, a sua IV parte é bastante conhecida. Você, caro leitor, muito provavelmente em alguma época de sua vida já teve que escutar o glorioso cantor baiano Caetano Velosso declamando a IV parte do poema. Sendo assim, vamos a parte interessante do poema.

Navio Negreiro

IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
(...)

Castro Alves

5º - Vou-me Embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira


Você leitor, talvez não esteja lembrando quem é o autor do 5º poema mais conhecido da história brasileira. Então, vou refrescar a sua memoria. Manuel Bandeira é o escritor que pegou tuberculose na adolescência e passou o resto da vida dizendo que ia morrer. Detalhe, o cidadão morreu com 82 anos. Entre outras coisas, o poeta pernambucano foi o responsável pele célebre discurso Os sapos, lido durante a semana de arte moderna de 22.

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

4º - Poeminha do Contra - Mario Quintana



Sim, este é o mesmo poema que você já viu em duzentos mil "quem sou eu do orkut". Além de ser um dos poetas favoritos dos fazedores de "quem sou eu" de orkut. O escritor gaúcho foi vítima de uma das maiores injustiças da ABL: o poeta tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma das ocasiões foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Ao ser convidado a candidatar-se uma quarta vez, e mesmo com a promessa de unanimidade em torno de seu nome, o poeta recusou.


Poeminha do Contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mario Quintana

3º - Soneto da Fidelidade - Vinicius de Morais


O escritor, compositor e boa vida carioca é autor de vários dos poemas mais conhecidos do Brasil. Escolhi esse, pois é o mais conhecido. Uma curiosidade sobre o autor, é que o mesmo odiava o apelido de "poetinha".

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Morais

2º - Canção do Exílio - Gonçalves Dias


O 2º poema mais conhecido da literatura brasileira foi escrito durante o período em que o escritor maranhense Gonçalves Dias estava estudando em Portugal, dai o nome "Canção do Exílio". O escritor morreu durante um naufrágio e, segundo a lenda, foi devorado por tubarões.


Canção do Exílio

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

Gonçalves Dias

1° José - Carlos Drummond de Andrade



O poema mais conhecido da literatura foi escrito pelo escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade, um farmacêutico nascido na cidade de Itabira. De tão conhecido que ele é, a expressão "E agora, José" virou uma gíria popular, usada em situações complicadas.

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 21 de março de 2010

[Referência Literária do Dia] Invictus

Essa referência é bem fácil, pois está bem explicita no filme. Trata-se do poema Invictus, de autoria William Ernest Henley.


William Ernest Henley foi um escritor inglês, nascido em 1849 e morto em 1903. Primogênito de seis irmãos, desde cedo o escritor teve que enfretar as amarguras da vida. Filho de um modesto vendedor de livros. Apesar da difícil condição financeira, seu pai conseguiu enviá-lo para uma escola secundária, Crypt Grammar School, que não pode concluir por motivos de saúde e financeiros. Tinha apenas doze anos de idade quando foi diagnosticada sua artrite decorrente do bacilo da tuberculose. Aos dezesseis teve a perna esquerda amputada abaixo do joelho. Em 1867, perdeu seu pai, tornando-se arrimo de sua mãe viúva e de seus irmãos. Em 1869 mudou-se para Londres onde conseguiu emprego como jornalista autônomo. Em 1872 sua doença o compeliu a viajar em tratamento para Edimburgo, Escócia, onde escreveu a coleção de poemas In Hospital e se apaixonou por Anna Boyle, com quem viria a se casar. Em 1875 tornou-se amigo íntimo de Robert Louis Stevenson que fora levado ao hospital para lhe conhecer. Nesse mesmo ano teve alta e retornou a Londres, onde se tornou editor da revista London. Em 1878 casou-se com Anna Boyle com quem teve sua única filha, Margaret, em 1888, que faleceu de meningite apenas 5 anos depois. Em 1889, tornou-se editor da revista Scots Observer, onde, nesse mesmo ano, escreveu uma crítica desfavorável de O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde que desencadeou uma célebre controvérsia entre ambos. Henley era um homem entusiasmado e apaixonado, com opiniões veementes e emoções intensas, e teve discussões com muitos outros contemporâneos. Permaneceu como editor de Scots Observer (cujo nome havia mudado para “National Observer”) até 1894, após o que morou em várias cidades inglesas com sua esposa. Morreu em 1903 de tuberculose.

No filme, Nelson Mandela (líder do movimento contra o Apartheid, que ficou 27 anos preso) diz ao capitão da seleção de rugby da África do Sul, Francois Pienaar, que o poema Invictus, de autoria de Ernest Henley, foi essencial para sobreviver ao momentos difíceis na prisão.

Segue abaixo a transcrição do Poema:


Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

sexta-feira, 19 de março de 2010

[Grandes Autores] Liev Tolstoi, o Espírito Santo

Quando comecei a escrever essa biografia, estava fazendo aquela coisa estilo Wikipédia "Liev Tolstói também conhecido como Léon Tolstói ou Leão Tolstoi ou Leo Tolstoy, Lev Nikoláievich Tolstói (Yasnaya Polyana, 9 de setembro de 1828 — Astapovo, 20 de novembro de 1910) é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos...". Mas ai eu pensei, porra! pra isso já existe a Wikipédia. Por isso, resolvi fazer essa biografia ao meu modo. Além do mais, Tolstoi era um cara que merece mais do que um cópia e cola da Wikipédia. Sim, meus amigos, Tolstoi foi grande, foi um gênio humano, um ser admirável.

É impossível não gostar desse cara. Primeiro, porque é impossível não gostar de alguém que tenha essa barba de Vovô bondoso, que se veste Papai Noel no Natal e sai distribuindo doces para os netinhos:



Segundo, porque a vida e, principalmente, a morte deste cara é digna de filme. A vida de Tolstói é bem simples, nasceu rico (era conde) mas ficou orfão muito cedo. Quando ficou mais velho, lá pelos 20 anos, resolveu fazer que nem o Ferris Bueller, ou seja, resolveu curtir a vida adoidado. Alistou-se no exercito russo, passou a beber todas e gastar toda a grana dos pais em jogos e putas. Pode-se dizer que, nessa época, na cidade em que Tolstói passava, não existia puta pobre.

Ficou mais velho, casou, teve filhos e aquietou o rabo. A mulher era uma chata, por isso eles passaram boa parte da vida conjugal brigando e discutindo. Sem ter o que fazer, ele passou a escrever e nessa brincadeira escreveu alguns dos maiores clássicos da literatura mundial, como Guerra e Paz e Anna Karenina.

A meia idade foi chegando e o velho continuou a escrever e começou a desenvolver algumas teorias que fizeram as pessoas o considerarem um anarquista cristão (Você deve estar se perguntando, wtf? Cristão Anarquista?). Em linhas gerais, o velho passou a criticar os Dogmas (Verdades Absolutas e Incontestáveis das Igrejas Cristã, tipo o fato de Maria ter engravidado de um Anjo ou Jesus ter ressuscitado). De tanto criticar, o velho foi excomungando pela Igreja Ortodoxa Russa, religião dominante no seu país.

O velho entendia como dogmas irracionais, que serviam apenas para dominar o povo, alguns dos conceitos mais caros à Igreja. Considerava e seguia a doutrina de Jesus, mas achava impossível, por exemplo, que Jesus pudesse ser um homem e Deus, ao mesmo tempo. Para Tolstoi, Deus estava nas próprias pessoas e em suas ações e Jesus teria sido, para ele, o homem que melhor soube exprimir uma conduta moral que gerasse justiça, felicidade e elevasse espiritualmente a todos os homens.

O Anarquista, por sua vez, advém do fato dele achar que os Estados, as Igrejas, os Tribunais e os dogmas eram apenas ferramentas de dominação de uns poucos homens sobre outros, porém repudiava a classificação de seus ideais como sendo anarquistas.

Seu cristianismo exacerbado, no fim de sua vida, assemelhava-se ao cristianismo primitivo. Em alguns trabalhos publicados, seus textos foram muito mais longe que suas atitudes pessoais, como em "Sonata a Kreutzer", que mostra uma tendência a exaltar o celibato, porém o escritor ainda teve filhos depois desta obra . Pouco antes de sua morte, seus amigos o aconselharam a se retratar com a Igreja, este porém, recusou-se (além de tudo era macho).

Enfim, o velho era foda. Mas agora vem a parte que eu mais gosto da história do Tolstoi, a sua morte. Quando ficou velho (82 anos) Tolstói se cansou da vida e resolveu fugir de casa, pois não acreditava mais na vida que vivia. O velho então pegou as malas e saiu viajando de trem pela Rússia. Durante alguns dias a fuga foi um sucesso. Nos trens e nas estações por que passava, Tolstoi era reconhecido por todos, já que era o homem mais famoso da Rússia. Porém, devido a sua preferência em viajar em vagões de terceira classe, onde havia frio e fumaça, o já debilitado escritor contraiu uma pneumonia, que foi agravando rapidamente. No dia 20 de novembro de 1910, o velho escritor morreu durante a fuga, de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, província de Riazan.

O trem funerário que trazia seu corpo foi recebido por camponeses e operários que viviam próximos à propriedade dos Tolstoi. Seu caixão foi carregado seguido por uma multidão de 3 a 4 mil pessoas. O número teria sido ainda maior se o governo de São Petesburgo não tivesse proibido a vinda de trens especiais de Moscou para o enterro do escritor. Sua morte foi noticiada nos principais jornais do mundo.

Em homenagem ao mestre russo, o escritor Mário Quintana escreveu esse poeminha:

Poema da Gare do Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

Post número 100 e outras coisas

Pois é, meus dez amigos imaginários, que acompanham esse obscuro blog de literatura, após quase um ano, nós chegamos ao post número 100 (grandes merdas!). Pois é, 100 post somente sobre literatura é muita coisa (grandes merdas! Não comi ninguém por isso), tanto, que se eu estivesse no saudoso XuXa Parque eu mandaria um beijo para minha mãe, meu pai, minha namorada, para a caravana de Fortaleza e, especialmente, para Xuxa e pra Sacha... Enfim, só queria dizer aos meus dez amigos imaginários, que irei começar uma nova sessão no blog, chamada de "Referência Literária do dia"(Mentira, isso aqui é so pra dizer que cheguei ao post número 100). Mas por que esse nome? Vocês devem estar se perguntando. Eu respondo, porque eu quis, ora mais!

Brincadeira as partes, nessa sessão tentarei mostrar que a literatura está presente em vários cantos da nossa vida, mesmo que não percebemos, não se restringindo, assim, ao mundinho fechado dos livros e intelectuais. Muitas vezes, escutamos uma música, vemos um filme, lemos uma frase e, sem perceber, uma referência literária está escancarada na nossa cara. Nessa sessão, tentarei mostrar como a literatura está presente no nosso dia a dia, como ela é um ser vivo e pulsante.

Pra começar, vamos falar das clássicas citações ao livro Admirável Mundo Novo, escrito em 1932 pelo britânico Aldous Huxley. Escrito em 1932, este livro é uma antevisão de um futuro no qual o domínio quase integral das técnicas e do saber científico produz uma sociedade totalitária e desumanizada. Esta ficção científica surpreende pela clareza do texto, pela lucidez do autor e pela atualidade das questões levantadas.


A banda inglesa Iron Mainden, por exemplo, possui um Álbum chamado Brave New World (Admirável Mundo Novo, em português). No Brasil, também podemos citar como exemplo a música da eterna roqueira baiana Pitty, chamada Admirável Chip Novo.

Por último, temos, também, a música do mestre Zé Ramalho, chamada Admirável Gado Novo (quem não se lembra da novela). A qual a letra segue abaixo:

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber...

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...(2x)

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal...

E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...(2x)

Oooooooooh! Oh! Oh!
O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela...

Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A Arca de Noé, o dirigível
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...(2x)

[Curiosidades Literárias] À mesa com os mestres

Muitos escritores, dramaturgos e poetas, que entraram para a história por seu talento com as palavras, deixaram registros claros de seus hábitos à mesa nas próprias obras. Alguns deles tornaram público o apetite voraz e o apreço por um bom prato. Outros, ao contrário, demonstraram que só comiam por obrigação.

William Shakespeare (1564-1616)
Dramaturgo depurou o paladar ao longo do tempo

A relação do inglês com a comida está presente em boa parte de sua obra e seu gosto foi se apurando com o tempo. "O contato com o mundo elegante de Londres faz com que se refinem as alusões à qualidade dos alimentos", afirma o catalão Néstor Luján no livro Historia de la Gastronomía. Nos trabalhos tardios, o leitor percebe que o autor apreciava a arte de comer bem. Este trecho é de História de Inverno, de 1611: "Três libras de açúcar, cinco de coentro e arroz; é preciso que haja açafrão, para dar cor às tortas de pera (...)"

Vinicius de Moraes (1913-1980)
Poeta gostava de improvisar ao fogão

O poetinha não era só bom de versos. Era ótimo também no forno e no fogão. Craque no improviso, recolhia o que havia na geladeira e acabava deixando os amigos surpresos. Também sabia fazer feijoada. A receita, colocou inteirinha nos versos de Feijoada à Minha Moda, de 1962. Seu talento culinário maior, no entanto, era o preparo de doces - ainda na adolescência, gostava de fazer balinhas à base de ovo e açúcar. A receita predileta era a de papos-de-anjo. Quem conhece Carta ao Tom, de 1964, deve se lembrar.

Monteiro Lobato (1882-1948)
Autor imortalizou receitas do interior do Brasil

Caipira de corpo e alma, o criador da boneca Emília apreciava a culinária do interior brasileiro a ponto de imortalizá-la em seus livros. Até hoje, quem pensa no Sítio do Picapau Amarelo quase sente o cheiro dos bolinhos de chuva preparados por Tia Nastácia. A receita existia de verdade e fazia parte do caderno de sua mulher, dona Purezinha. Anote:

Bolinho de chuva

Ingredientes: 2 xícaras de farinha de trigo; 3 colheres (sopa) de açúcar; 1 pitada de sal; 1 colher (sopa) de fermento em pó; 2 colheres (sopa) de leite; 1 colher (sopa) de manteiga; 3 ovos; 1 colher (sopa) de parmesão; erva-doce; óleo para fritar; açúcar e canela em pó.

Preparo: Misture a manteiga e o açúcar. Acrescente os ovos e coloque aos poucos o trigo com fermento. Misture. Acrescente sal, leite, erva-doce e queijo. Mexa. Frite em óleo quente. Abaixe o fogo quando o óleo estiver muito quente. Salpique os bolinhos com açúcar e canela.

Fernando Pessoa (1888-1935)

O poeta era figura constante nos cafés e restaurantes de Lisboa. Mas não era um gourmet. Ele passava horas à mesa escrevendo, tragando e bebericando café e bagaço (aguardente de uva). Apesar do desprendimento em relação à comida, não faltam registros de receitas em seus versos, de arroz-doce a bife, passando até por sardinhas.

Mário de Andrade (1893-1945)


O escritor registrou na obra O Turista Aprendiz boa parte de seus interesses gastronômicos. Viajando por MG, AM e Nordeste (1924-1929), teve contato com receitas típicas. Os doces, no entanto, eram seu ponto fraco. A receita de batata rosada está entre as 131 anotadas em um caderno.

Gilberto Freyre (1900-1987)


O autor de Açúcar e Casa-Grande e Senzala era bom de garfo e reconhecia as tradições culinárias como um dos aspectos mais fundamentais da cultura de um povo. Frequentava endereços chiques, mas a lista de seus pratos prediletos mostra que ele gostava mesmo era das receitas populares, como cozido de charque e legumes.

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