domingo, 28 de março de 2010

[Referência Literária do dia] Renato Russo


Essa referência é bem difícil. Nesta semana o cantor Renato Russo faria 50 anos (ontem, mais precisamente). Pouca gente sabe, mas o vocalista da banda Legião Urbana se chamava Renato Manfredini. Mas então, de onde veio o “Russo” do seu nome artístico? Adivinhe só: segundo o artista, foi uma homenagem a Bertrand Russell.



E quem era Bertrand Russel? É o que leitor deve estar se perguntando agora. Pois bem, ele foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Político liberal, activista e um popularizador da filosofia. Inúmeras pessoas respeitaram Russell como uma espécie de profeta da vida racional e da criatividade. A sua postura em vários temas foi controversa.

Russell nasceu em 1872, no auge do poderio económico e político do Reino Unido, tendo morrido em 1970, vítima de uma gripe, quando o império se tinha desmoronado e o seu poder drenado em duas guerras vitoriosas mas debilitantes. Até à sua morte, a sua voz deteve sempre autoridade moral, uma vez que ele foi um crítico influente das armas nucleares e da guerra estadunidense no Vietnã. Era inquieto.

Recebeu o Nobel de Literatura de 1950, "em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento".

sábado, 27 de março de 2010

As 7 poesias mais conhecidas da literatura brasileira

Aqui vai uma lista dos poemas brasileiros (vou logo avisando: Fernando Pessoa é PORTUGUÊS!) que considero os mais conhecidos da história. Com certeza, o amigo leitor, já se deparou alguma vez na vida, em casa, no trabalho ou até mesmo na rua, entre um rebolation e outro, com alguma passagem de um dos poemas abaixo:


7 º - Versos Íntimos - Augusto dos Anjos



Esse poema (meu favorito) do escritor paraibano Augusto dos Anjos, o pai do movimento simbolista no Brasil, não é exatamente o mais conhecido da história, mas é um dos preferidos dos professores de literatura Brasil a fora. Possivelmente o leitor já deve ter se deparado com ele em algum livro, apostila ou prova.

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!

Augusto dos Anjos

6° - Navio Negreiro - Castro Alves


Um dos poemas mais conhecidos e belos da literatura brasileira e mundial. No poema, o escritor baiano dar voz aos sem vozes, descrevendo como era o transporte dos negros durante o período da escravidão. O poema como um todo não é lá muito conhecido, uma vez que ele é imenso, entretanto, a sua IV parte é bastante conhecida. Você, caro leitor, muito provavelmente em alguma época de sua vida já teve que escutar o glorioso cantor baiano Caetano Velosso declamando a IV parte do poema. Sendo assim, vamos a parte interessante do poema.

Navio Negreiro

IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
(...)

Castro Alves

5º - Vou-me Embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira


Você leitor, talvez não esteja lembrando quem é o autor do 5º poema mais conhecido da história brasileira. Então, vou refrescar a sua memoria. Manuel Bandeira é o escritor que pegou tuberculose na adolescência e passou o resto da vida dizendo que ia morrer. Detalhe, o cidadão morreu com 82 anos. Entre outras coisas, o poeta pernambucano foi o responsável pele célebre discurso Os sapos, lido durante a semana de arte moderna de 22.

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

4º - Poeminha do Contra - Mario Quintana



Sim, este é o mesmo poema que você já viu em duzentos mil "quem sou eu do orkut". Além de ser um dos poetas favoritos dos fazedores de "quem sou eu" de orkut. O escritor gaúcho foi vítima de uma das maiores injustiças da ABL: o poeta tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma das ocasiões foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Ao ser convidado a candidatar-se uma quarta vez, e mesmo com a promessa de unanimidade em torno de seu nome, o poeta recusou.


Poeminha do Contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mario Quintana

3º - Soneto da Fidelidade - Vinicius de Morais


O escritor, compositor e boa vida carioca é autor de vários dos poemas mais conhecidos do Brasil. Escolhi esse, pois é o mais conhecido. Uma curiosidade sobre o autor, é que o mesmo odiava o apelido de "poetinha".

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Morais

2º - Canção do Exílio - Gonçalves Dias


O 2º poema mais conhecido da literatura brasileira foi escrito durante o período em que o escritor maranhense Gonçalves Dias estava estudando em Portugal, dai o nome "Canção do Exílio". O escritor morreu durante um naufrágio e, segundo a lenda, foi devorado por tubarões.


Canção do Exílio

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

Gonçalves Dias

1° José - Carlos Drummond de Andrade



O poema mais conhecido da literatura foi escrito pelo escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade, um farmacêutico nascido na cidade de Itabira. De tão conhecido que ele é, a expressão "E agora, José" virou uma gíria popular, usada em situações complicadas.

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 21 de março de 2010

[Referência Literária do Dia] Invictus

Essa referência é bem fácil, pois está bem explicita no filme. Trata-se do poema Invictus, de autoria William Ernest Henley.


William Ernest Henley foi um escritor inglês, nascido em 1849 e morto em 1903. Primogênito de seis irmãos, desde cedo o escritor teve que enfretar as amarguras da vida. Filho de um modesto vendedor de livros. Apesar da difícil condição financeira, seu pai conseguiu enviá-lo para uma escola secundária, Crypt Grammar School, que não pode concluir por motivos de saúde e financeiros. Tinha apenas doze anos de idade quando foi diagnosticada sua artrite decorrente do bacilo da tuberculose. Aos dezesseis teve a perna esquerda amputada abaixo do joelho. Em 1867, perdeu seu pai, tornando-se arrimo de sua mãe viúva e de seus irmãos. Em 1869 mudou-se para Londres onde conseguiu emprego como jornalista autônomo. Em 1872 sua doença o compeliu a viajar em tratamento para Edimburgo, Escócia, onde escreveu a coleção de poemas In Hospital e se apaixonou por Anna Boyle, com quem viria a se casar. Em 1875 tornou-se amigo íntimo de Robert Louis Stevenson que fora levado ao hospital para lhe conhecer. Nesse mesmo ano teve alta e retornou a Londres, onde se tornou editor da revista London. Em 1878 casou-se com Anna Boyle com quem teve sua única filha, Margaret, em 1888, que faleceu de meningite apenas 5 anos depois. Em 1889, tornou-se editor da revista Scots Observer, onde, nesse mesmo ano, escreveu uma crítica desfavorável de O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde que desencadeou uma célebre controvérsia entre ambos. Henley era um homem entusiasmado e apaixonado, com opiniões veementes e emoções intensas, e teve discussões com muitos outros contemporâneos. Permaneceu como editor de Scots Observer (cujo nome havia mudado para “National Observer”) até 1894, após o que morou em várias cidades inglesas com sua esposa. Morreu em 1903 de tuberculose.

No filme, Nelson Mandela (líder do movimento contra o Apartheid, que ficou 27 anos preso) diz ao capitão da seleção de rugby da África do Sul, Francois Pienaar, que o poema Invictus, de autoria de Ernest Henley, foi essencial para sobreviver ao momentos difíceis na prisão.

Segue abaixo a transcrição do Poema:


Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

sexta-feira, 19 de março de 2010

[Grandes Autores] Liev Tolstoi, o Espírito Santo

Quando comecei a escrever essa biografia, estava fazendo aquela coisa estilo Wikipédia "Liev Tolstói também conhecido como Léon Tolstói ou Leão Tolstoi ou Leo Tolstoy, Lev Nikoláievich Tolstói (Yasnaya Polyana, 9 de setembro de 1828 — Astapovo, 20 de novembro de 1910) é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos...". Mas ai eu pensei, porra! pra isso já existe a Wikipédia. Por isso, resolvi fazer essa biografia ao meu modo. Além do mais, Tolstoi era um cara que merece mais do que um cópia e cola da Wikipédia. Sim, meus amigos, Tolstoi foi grande, foi um gênio humano, um ser admirável.

É impossível não gostar desse cara. Primeiro, porque é impossível não gostar de alguém que tenha essa barba de Vovô bondoso, que se veste Papai Noel no Natal e sai distribuindo doces para os netinhos:



Segundo, porque a vida e, principalmente, a morte deste cara é digna de filme. A vida de Tolstói é bem simples, nasceu rico (era conde) mas ficou orfão muito cedo. Quando ficou mais velho, lá pelos 20 anos, resolveu fazer que nem o Ferris Bueller, ou seja, resolveu curtir a vida adoidado. Alistou-se no exercito russo, passou a beber todas e gastar toda a grana dos pais em jogos e putas. Pode-se dizer que, nessa época, na cidade em que Tolstói passava, não existia puta pobre.

Ficou mais velho, casou, teve filhos e aquietou o rabo. A mulher era uma chata, por isso eles passaram boa parte da vida conjugal brigando e discutindo. Sem ter o que fazer, ele passou a escrever e nessa brincadeira escreveu alguns dos maiores clássicos da literatura mundial, como Guerra e Paz e Anna Karenina.

A meia idade foi chegando e o velho continuou a escrever e começou a desenvolver algumas teorias que fizeram as pessoas o considerarem um anarquista cristão (Você deve estar se perguntando, wtf? Cristão Anarquista?). Em linhas gerais, o velho passou a criticar os Dogmas (Verdades Absolutas e Incontestáveis das Igrejas Cristã, tipo o fato de Maria ter engravidado de um Anjo ou Jesus ter ressuscitado). De tanto criticar, o velho foi excomungando pela Igreja Ortodoxa Russa, religião dominante no seu país.

O velho entendia como dogmas irracionais, que serviam apenas para dominar o povo, alguns dos conceitos mais caros à Igreja. Considerava e seguia a doutrina de Jesus, mas achava impossível, por exemplo, que Jesus pudesse ser um homem e Deus, ao mesmo tempo. Para Tolstoi, Deus estava nas próprias pessoas e em suas ações e Jesus teria sido, para ele, o homem que melhor soube exprimir uma conduta moral que gerasse justiça, felicidade e elevasse espiritualmente a todos os homens.

O Anarquista, por sua vez, advém do fato dele achar que os Estados, as Igrejas, os Tribunais e os dogmas eram apenas ferramentas de dominação de uns poucos homens sobre outros, porém repudiava a classificação de seus ideais como sendo anarquistas.

Seu cristianismo exacerbado, no fim de sua vida, assemelhava-se ao cristianismo primitivo. Em alguns trabalhos publicados, seus textos foram muito mais longe que suas atitudes pessoais, como em "Sonata a Kreutzer", que mostra uma tendência a exaltar o celibato, porém o escritor ainda teve filhos depois desta obra . Pouco antes de sua morte, seus amigos o aconselharam a se retratar com a Igreja, este porém, recusou-se (além de tudo era macho).

Enfim, o velho era foda. Mas agora vem a parte que eu mais gosto da história do Tolstoi, a sua morte. Quando ficou velho (82 anos) Tolstói se cansou da vida e resolveu fugir de casa, pois não acreditava mais na vida que vivia. O velho então pegou as malas e saiu viajando de trem pela Rússia. Durante alguns dias a fuga foi um sucesso. Nos trens e nas estações por que passava, Tolstoi era reconhecido por todos, já que era o homem mais famoso da Rússia. Porém, devido a sua preferência em viajar em vagões de terceira classe, onde havia frio e fumaça, o já debilitado escritor contraiu uma pneumonia, que foi agravando rapidamente. No dia 20 de novembro de 1910, o velho escritor morreu durante a fuga, de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, província de Riazan.

O trem funerário que trazia seu corpo foi recebido por camponeses e operários que viviam próximos à propriedade dos Tolstoi. Seu caixão foi carregado seguido por uma multidão de 3 a 4 mil pessoas. O número teria sido ainda maior se o governo de São Petesburgo não tivesse proibido a vinda de trens especiais de Moscou para o enterro do escritor. Sua morte foi noticiada nos principais jornais do mundo.

Em homenagem ao mestre russo, o escritor Mário Quintana escreveu esse poeminha:

Poema da Gare do Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

Post número 100 e outras coisas

Pois é, meus dez amigos imaginários, que acompanham esse obscuro blog de literatura, após quase um ano, nós chegamos ao post número 100 (grandes merdas!). Pois é, 100 post somente sobre literatura é muita coisa (grandes merdas! Não comi ninguém por isso), tanto, que se eu estivesse no saudoso XuXa Parque eu mandaria um beijo para minha mãe, meu pai, minha namorada, para a caravana de Fortaleza e, especialmente, para Xuxa e pra Sacha... Enfim, só queria dizer aos meus dez amigos imaginários, que irei começar uma nova sessão no blog, chamada de "Referência Literária do dia"(Mentira, isso aqui é so pra dizer que cheguei ao post número 100). Mas por que esse nome? Vocês devem estar se perguntando. Eu respondo, porque eu quis, ora mais!

Brincadeira as partes, nessa sessão tentarei mostrar que a literatura está presente em vários cantos da nossa vida, mesmo que não percebemos, não se restringindo, assim, ao mundinho fechado dos livros e intelectuais. Muitas vezes, escutamos uma música, vemos um filme, lemos uma frase e, sem perceber, uma referência literária está escancarada na nossa cara. Nessa sessão, tentarei mostrar como a literatura está presente no nosso dia a dia, como ela é um ser vivo e pulsante.

Pra começar, vamos falar das clássicas citações ao livro Admirável Mundo Novo, escrito em 1932 pelo britânico Aldous Huxley. Escrito em 1932, este livro é uma antevisão de um futuro no qual o domínio quase integral das técnicas e do saber científico produz uma sociedade totalitária e desumanizada. Esta ficção científica surpreende pela clareza do texto, pela lucidez do autor e pela atualidade das questões levantadas.


A banda inglesa Iron Mainden, por exemplo, possui um Álbum chamado Brave New World (Admirável Mundo Novo, em português). No Brasil, também podemos citar como exemplo a música da eterna roqueira baiana Pitty, chamada Admirável Chip Novo.

Por último, temos, também, a música do mestre Zé Ramalho, chamada Admirável Gado Novo (quem não se lembra da novela). A qual a letra segue abaixo:

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber...

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...(2x)

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal...

E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...(2x)

Oooooooooh! Oh! Oh!
O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela...

Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A Arca de Noé, o dirigível
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...(2x)

[Curiosidades Literárias] À mesa com os mestres

Muitos escritores, dramaturgos e poetas, que entraram para a história por seu talento com as palavras, deixaram registros claros de seus hábitos à mesa nas próprias obras. Alguns deles tornaram público o apetite voraz e o apreço por um bom prato. Outros, ao contrário, demonstraram que só comiam por obrigação.

William Shakespeare (1564-1616)
Dramaturgo depurou o paladar ao longo do tempo

A relação do inglês com a comida está presente em boa parte de sua obra e seu gosto foi se apurando com o tempo. "O contato com o mundo elegante de Londres faz com que se refinem as alusões à qualidade dos alimentos", afirma o catalão Néstor Luján no livro Historia de la Gastronomía. Nos trabalhos tardios, o leitor percebe que o autor apreciava a arte de comer bem. Este trecho é de História de Inverno, de 1611: "Três libras de açúcar, cinco de coentro e arroz; é preciso que haja açafrão, para dar cor às tortas de pera (...)"

Vinicius de Moraes (1913-1980)
Poeta gostava de improvisar ao fogão

O poetinha não era só bom de versos. Era ótimo também no forno e no fogão. Craque no improviso, recolhia o que havia na geladeira e acabava deixando os amigos surpresos. Também sabia fazer feijoada. A receita, colocou inteirinha nos versos de Feijoada à Minha Moda, de 1962. Seu talento culinário maior, no entanto, era o preparo de doces - ainda na adolescência, gostava de fazer balinhas à base de ovo e açúcar. A receita predileta era a de papos-de-anjo. Quem conhece Carta ao Tom, de 1964, deve se lembrar.

Monteiro Lobato (1882-1948)
Autor imortalizou receitas do interior do Brasil

Caipira de corpo e alma, o criador da boneca Emília apreciava a culinária do interior brasileiro a ponto de imortalizá-la em seus livros. Até hoje, quem pensa no Sítio do Picapau Amarelo quase sente o cheiro dos bolinhos de chuva preparados por Tia Nastácia. A receita existia de verdade e fazia parte do caderno de sua mulher, dona Purezinha. Anote:

Bolinho de chuva

Ingredientes: 2 xícaras de farinha de trigo; 3 colheres (sopa) de açúcar; 1 pitada de sal; 1 colher (sopa) de fermento em pó; 2 colheres (sopa) de leite; 1 colher (sopa) de manteiga; 3 ovos; 1 colher (sopa) de parmesão; erva-doce; óleo para fritar; açúcar e canela em pó.

Preparo: Misture a manteiga e o açúcar. Acrescente os ovos e coloque aos poucos o trigo com fermento. Misture. Acrescente sal, leite, erva-doce e queijo. Mexa. Frite em óleo quente. Abaixe o fogo quando o óleo estiver muito quente. Salpique os bolinhos com açúcar e canela.

Fernando Pessoa (1888-1935)

O poeta era figura constante nos cafés e restaurantes de Lisboa. Mas não era um gourmet. Ele passava horas à mesa escrevendo, tragando e bebericando café e bagaço (aguardente de uva). Apesar do desprendimento em relação à comida, não faltam registros de receitas em seus versos, de arroz-doce a bife, passando até por sardinhas.

Mário de Andrade (1893-1945)


O escritor registrou na obra O Turista Aprendiz boa parte de seus interesses gastronômicos. Viajando por MG, AM e Nordeste (1924-1929), teve contato com receitas típicas. Os doces, no entanto, eram seu ponto fraco. A receita de batata rosada está entre as 131 anotadas em um caderno.

Gilberto Freyre (1900-1987)


O autor de Açúcar e Casa-Grande e Senzala era bom de garfo e reconhecia as tradições culinárias como um dos aspectos mais fundamentais da cultura de um povo. Frequentava endereços chiques, mas a lista de seus pratos prediletos mostra que ele gostava mesmo era das receitas populares, como cozido de charque e legumes.

Retirei daqui

domingo, 7 de março de 2010

[Curiosidades Literárias] 1984


O filme 1984 (Adaptação do livro 1984 de George Orwell, produzido em 1984 e dirigido por Michael Radford) começou a ser filmado exatamente no dia que começava o diário do personagem "Winston Smith" no livro de Orwell: dia 4 de abril de 1984.

quarta-feira, 3 de março de 2010

[Especial Filosofia] Sun Tzu, o filósofo da guerra


Sun Tzu falava de guerra como poucos. Contemporâneo de Confúcio, viveu numa época em que a filosofia era munição poderosa para a arte das estratégias e táticas militares. Na China de 2,5 mil anos atrás, conflitos armados funcionavam como rituais genuínos e envolviam convenções impensáveis nos dias de hoje. Não se abatiam homens velhos durante a luta, por exemplo. Um governante de bom-senso não massacrava cidades inteiras e as ordens de um comandante, em larga medida, eram baseadas em presságios de adivinhos que ficavam no próprio campo de batalha. En­tre magos e filósofos, muitos reis ficavam com a segunda opção e colocavam pensadores à frente de seus exércitos. Sun Tzu, ou Mestre Sun, era o mais famoso deles.

Durante duas décadas, entre os sécu­los 5o e 6o a.C., Sun Tzu subjugou seus inimigos com os ensinamentos que transmitia a seus soldados. Naquele tempo, as batalhas ainda eram algo primitivas, mas o jeito de fazer guerra mudava rapidamente. A China rendia-se ao crescente poderio militar dos senhores feudais e atravessava a chamada Era do Estado de Guerra. Os equipamentos bélicos evoluíam velozmente e as primeiras táticas militares eram formuladas pelos grandes estrategistas da época, os filósofos.

Sun Tzu não era apenas um motivador. Falava com propriedade sobre o posicionamento de tropas, a movimentação de soldados, técnicas de emboscada e até mudanças inesperadas de clima. Parte desse conhecimento ele sistematizou no livro A Arte da Guerra, um tratado filosófico-militar de treze capítulos, que aborda diversos aspectos ligados à guerra.

Com frases e pensamentos que lembram os atuais livros de auto-ajuda, o livro ficou famoso no mundo moderno pela sua aplicação em várias áreas. A lista de supostos leitores célebres é extensa. Vai de Napoleão Bonaparte a Luís Felipe Scolari. Dizem que Hitler o leu. Lula e Mao Tse-tung, também. É o livro de cabeceira de altos executivos, que adoram citar suas passagens no mundo dos negócios.

Guerra de teorias

A documentação sobre a vida do general é escassa e as opiniões de historiadores variam bastante. Alguns negam a própria existência de Sun Tzu; outros a admitem, mas acreditam que ele não escreveu A Arte da Guerra sozinho. A idéia mais difundida é que ele nasceu por volta de 540 a.C. com o nome de Sun Wu. Era filho da aristocracia militar chinesa e aprendeu a desenvolver seu olhar peculiar sobre as estratégias de guerra com o avô. Em 517 a.C., rumou para o sul e fixou-se em Wu, onde se tornou súdito do rei He Lu.

A passagem mais conhecida da vida de Sun Tzu data desse período. Consta que He Lu chamou-o após ler A Arte da Guerra e pediu que ele fizesse uma pequena demonstração de seu treinamento. Sun Tzu chamou 180 concubinas do rei e dividiu-as em duas alas. Nas duas vezes que repetiu uma simples ordem para as mulheres, elas caíram na risada. E não tiveram uma terceira chance. Sun Tzu mandou decapitar as duas concubinas preferidas do rei, que, sem sucesso, ainda tentou evitar a morte das amantes.

Alguns relatos dão conta de que Sun Tzu morreu em 496 a.C., mas nada se sabe sobre sua morte. Há quem aceite que ele lutou ao lado do sucessor de He Lu, até a queda do reino de Wu. De qualquer forma, sua obra manteve-se viva por mais de 2 mil anos e até hoje guarda as palavras de um homem que falava de guerra como ninguém. Pelo menos na teoria.

A arte de enganar o inimigo

Do livro de Sun Tzu: “Quando capaz, finja ser incapaz; quando pronto, finja desespero; quando perto, finja estar longe; quando longe, fa­çam acreditar que está próximo”. Esse ensinamento foi levado à risca pelo militar chinês Sun Pin em 351 a.C. Para alguns estudiosos, ele era neto de Sun Tzu; para outros, apenas um seguidor; para um terceiro grupo, eram uma única pessoa. De qualquer forma, o pensamento do general mostrou-se extremamente eficaz em um dos conflitos comandados por Sun Pin. Ele sabia que suas tropas tinham fama de covardes, e por isso seu adversário, P’ang Chuan, desprezava-os. Certa noite, ele ordenou que seus homens acendessem 100 mil fogueiras. Na seguinte, pediu para acenderem 50 mil e, na terceira noite, 20 mil. P’ang Chuan organizou en­­tão um ataque pesa­do, mas Sun Pin armou uma emboscada e encurralou as tropas de P’ang Chuan. O inimigo foi morto e seus homens, capturados.

Sábias palavras

• “Quando cercar o inimigo, deixe uma saída para ele. Caso contrário, ele lutará até a morte”

• “Um grande general não é arrastado ao combate. Ao contrário, sabe impô-lo ao inimigo”

• “Comandar muitos é o mesmo que comandar poucos. Tudo é uma questão de organização”

• “Na arte da guerra, a melhor op­ção é tomar o país inimigo intacto. Esmagá-lo é apenas a segunda melhor opção”

• “A invencibilidade repousa na defesa. A vulnerabilidade revela-se no ataque”

• “A vantagem estratégica desenvolvida por bons guerreiros é como o movimento de uma pedra redonda, rolando por uma montanha de 300 metros de altura. A força necessária é insignificante; o resultado, espetacular”.

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